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8 de janeiro de 2013

Insanidade



 Nesta manhã acordei sóbrio,
Tive um sonho:
Você me tomando em seus braços,
A ressaca do amor nos embriagava
E as estações se alternavam.
De repente, eu estava sozinho.
Acordei me sentindo só.
Sóbrio, porém solitário.

Nesta noite, permaneci lúcido.
A Lua Cheia me chamava
E eu me fingi de surdo.
“Sua inconstância não me afeta mais”,
Gritei, raivoso por fora, vazio por dentro.
“Mãe!”.
Eu chorei, olhando para a Lua.
Sorri, louco novamente.

Nesta tarde adormeci.
O calor tirou a minha roupa.
Ou fui eu?
Nu, o desejo me consumindo,
Meu corpo todo enrijecido.
Sangue, calor e desejo querendo alimentar meu vício.
Meu corpo quer seu corpo.

Sou um monstro,
Mas eu amo.
“O sentimento é começo da razão!”,
Lembrei-me.
Eu amo!
Não sou um monstro louco.
2 de setembro de 2012

O que deixamos?

Temos mais dor
Somos cegos, mudos e surdos.
Temos dinheiro
Somos pobres, oprimidos e marginais.
Temos amor
Somos assassinos e psicopatas.
Temos Deus
Somos falsos profetas, hipócritas e egoístas.
Temos tolerância
Somos machistas, racistas, xenófobos.
Temos liberdade
Somos ditadores.
Temos razão
Somos vândalos, violentos, desumanos.
Temos...?
Somos...?
O que deixamos?

6 de julho de 2012

Palavras tortas: minha poesia

Minha poesia canta a rejeição,
Faço dela uma acolhida aos rejeitados.
É marginal a minha poesia,
Canta os becos,
A escuridão das esquinas sombrias
E canta o amor
Entre pessoas que se amam.


Canto o amor rejeitado,
Canto o pecado,
Canto a luxúria e a lascívia que
nos é permitida.
Canto a mim,
Pois também sou infértil,
Lascivo, amante do pecado
E escravo do amor.


Minha poesia é escuridão e luz,
Alegria e tristeza,
Vida e morte,
Amor e indiferença.
Minha poesia é feita de notas de suor,
Letras molhadas por lágrimas
E frases bipolares.



Canto a equidade,
Canto a acolhida...
Posso ser pecador
Mas eu não rejeito.

Pecadores ou “santos”,
Somos todos iguais.
A minha poesia é um grito por igualdade,
Nada mais.

13 de junho de 2012

Ex-escravo do amor


 "The Boy Next Door", 2006
36" X 48", acrylic on canvas



Amor.

Prefiro acreditar que foi isso que eu sempre busquei. Porém, nestes becos destas ruas solitárias o que mais me negaram foi isso: amor...

Fui um marginal solitário. Percorria as ruas desta cidade nas noites solitárias. Sou também um pecador. Nasci assim. Sou fraco talvez, mas não sei fugir da minha sina. Percorria as ruas desta cidade em busca de pecadores como eu, que pagassem para pecar.

- Pecado! - todos os dias eu me lembrava. - Pecado, meu filho! Pecado mortal!

- Mas existe pecado inato, minha mãe?

- Nascemos pecadores, meu filho... – era minha agonia diária a lembrança dessa sentença.

Havia dias em que eu pensava que tudo poderia mudar. Um sorriso, um abraço aconchegante, uma palavra carinhosa. Para um mendigo essas pequenas coisas tornam-se esperanças de dias melhores. Sonhos, apenas. Aos poucos fui percebendo que não é preciso ser um mendigo pra se sentir solidão. E os solitários eram os mais carinhosos, mas eles nunca achavam que eu poderia curar a sua solidão. Bem, não lhes culpo. Quem pensaria que um marginal pecador tem coração?

Sem casa, sem família, sem amigos eu vivia era de compaixão. E as pessoas caridosas a gente nunca se esquece.

Dona Maria, a dona do restaurante do centro da cidade. Acolhia os pecadores, nos abraçava. “Terça e quinta comida pra vocês todos. Por conta da casa!”. E, nesses dias, ela ficava me procurando. Quando eu não aparecia, ficava preocupada, é o que diziam. Quando me achava, eu recebia aquele abraço quente, forte e aconchegante. Era uma segunda mãe. 

- Tão bonito, tão jovem... Você tem que sair dessa vida, meu filho! Não quer trabalhar aqui no restaurante? Você daria um excelente garçom!

“Pecado, meu filho! Pecado mortal!”

- Quem é que vai querer um pecador neste restaurante tão lindo, tão limpo, tão quente, dona Maria? Sou um marginal, essa é a vida que mereço...

Nestas horas não conseguia encarar os seus olhos cheios de lágrimas. Com a cabeça baixa, pegava um prato de comida e comia calado e quieto.

- O que te faz pensar assim, meu filho? Você é um rapaz tão bom...

“Nascemos pecadores, meu filho...”.

Também o seu José, dono do carrinho de pipoca. Pra gente era grátis.

“Na minha época essas coisas não existiam. Onde o mundo vai parar, meu Deus? Onde foi que eu errei? É culpa dessa televisão, dessas revistas. Ficam propagandeando esse estilo de vida de imundície!”

- Sabe, meu filho, eu não rejeito vocês não! – era o que dizia o seu José. – Tive um grande amigo. Ele era como vocês. Ele era amigo do peito mesmo. Éramos amigos de infância. Mas os pais brigaram quando souberam, foi uma coisa feia. A cidade toda ficou sabendo. Na minha época a coisa era feia...

- O senhor se afastou dele, seu José?

- Claro que não! Eu o acolhi em minha casa mas o coitado era muito orgulhoso. Não aceitou ficar lá por muito tempo. Saiu por aí, disse que ia tentar a vida em algum lugar que acolhesse pessoas como ele. Nunca mais tive notícias dele.

E os olhos quase em lágrimas.

- Faz muito tempo, seu José?

- Sim, bastante tempo...

“Na minha época essas coisas não existiam. Onde o mundo vai parar, meu Deus?”

Mas quem me tirava os melhores sorrisos era o seu Palhaço, como a gente gostava de chamá-lo. Sempre rodeado de crianças, ele contava as melhores piadas, fazia as caretas mais engraçadas e dava os melhores abraços. As crianças também nos abraçavam até serem tiradas dos nossos braços por seus pais.

- Criança não julga. É pura. O tempo que vai tirando nossa pureza. – dizia o seu Palhaço.

“Nascemos pecadores, meu filho...”.

Mesmo sem maquiagem e fantasia o seu Palhaço era extremamente cômico. Não consigo imaginar o seu Palhaço em outra profissão sem ser a de palhaço.

- Sabe que nem eu?

Tenho certeza que é o que ele diria.

Seu Palhaço era engraçado, contador de história, agradava crianças e adultos. Isso todos nós sabíamos. O que não sabíamos era que o seu Palhaço tinha uma família. Foi num domingo, se não me engano. Nós todos reunidos na praça. Todos dormindo nos bancos, exceto eu. Estava deitado, mas eu estava bem desperto, preso em lembranças e pensamentos.

Uma mulher veio me acordar. Ela sorria. Perguntou se eu era o “preferido do seu Palhaço”. Sorri também.

- Sim, sou eu dona moça!

- Deixa eu me apresentar. – disse ela. – Sou a mulher do seu Palhaço. Vim aqui pra conhecer os protegidos dele.

Levantei em um pulo. Abracei a dona moça e fiz questão de arrumar a minha roupa amassada. Apresentei-lhe o meu melhor sorriso e falei muito bem do seu Palhaço. Ela sorria, fazia piada. Dona moça passava roupas pras senhoras ricas. Era humilde, simples e amorosa como o seu marido. “Boa escolha fez ele”, foi o que eu pensei.

- Há alguém por aqui que deseja lhe conhecer. O seu Palhaço fala tão bem de você que ele veio até aqui pra ver se o meu marido não estava exagerando. Nós dois sabemos que às vezes ele gosta de acrescentar coisas...

Junto ao seu Palhaço estava um rapaz. Parecia ter a minha idade, mas com certeza não éramos nem um pouco parecidos. Ele usava roupas limpas, tinha o cabelo penteado e bem cuidado, a barba feita. Ah, não posso me esquecer. O sorriso perfeito. Ele sorriu quando me viu e veio até mim. Seu jeito de andar era de gente decidida e dona de si. Resoluto, olhando para onde se dirigia, sem esconder os olhos, sem cabeça baixa e rosto vermelho de vergonha.

“Pessoas como você estão fadadas a nunca encontrar amor!”

- Ouvi falar muito de você! – disse sorrindo.

Não havia outra opção a não ser sorrir também. E, com roupa, foi a primeira vez que fiquei inteiramente nu. “Eu tão sujo perto desse moço tão limpo e brilhante...”.

- Você não é sujo.

Olhei pra ele, assustado.

- Meu pai disse que você é muito cruel consigo mesmo. Eu o achei muito atraente.

Ele estendeu a sua mão. Eu lhe dei a minha. Juntos caminhamos e até hoje seguimos a estrada juntos.

Minha mãe estava enganada. Carlos, o filho do seu Palhaço, foi o cara que me deu amor e que me livrou dos meus pecados. Ou pelo menos, daquilo que eu achava que era pecado. Amor. E amor nunca pode ser pecado.

19 de março de 2012

Tempo De Fingir - Time To Pretend



Estou me sentindo grosseiro, estou me sentindo vivo

Estou no auge de minha vida

Vamos fazer alguma música, conseguir algum dinheiro achar algumas modelos para esposas
Vou me mudar para Paris, picar heroína e foder com as estrelas 
Você toma conta da ilha e da cocaína e dos carros elegantes

Essa é a nossa decisão viver rápido e morrer jovem
Nós tivemos a visão, agora vamos ter alguma diversão
Sim, é esmagador, mas o que mais podemos fazer?
Conseguir empregos em escritórios e acordar para a manhã diariamente?


Esqueça tudo sobre nossos irmãos e amigos

Nós estamos destinados a fingir

Sentirei falta dos parquinhos, dos animais e de cavar minhocas

Sentirei falta do conforto da minha mãe e do peso do mundo

Sentirei falta da minha irmã, do meu pai,do meu cachorro e do meu lar
Sim, sentirei falta do tédio e da liberdade e do tempo gasto sozinho


Mas não há realmente nada que possamos fazer

O amor deve ser esquecido
A vida pode sempre recomeçar novamente
As modelos terão filhos, nós nos divorciaremos Encontraremos mais modelos, tudo deve correr no seu curso
Nós nos engasgaremos no nosso próprio vômito e esse será o fim
Estamos destinados a fingir



25 de fevereiro de 2012

Marginais

Sou um assassino;
Extermino os ideais de minha geração.
Sou um ladrão;
Roubo os sentimentos para provar que temos coração.
Sou um meliante;
Vivo de ar, de poesia...
Sou da boemia,
Sustentado pelas viradas da vida.

Não tomo os meus remédios,
Fujo dos consultórios dos meus médicos.
Eu não sou louco,
Sou marginal, apenas.
Não me leve à mal
Por viver daquilo que você dispensa:
Amor, ódio, alegria e tristeza!

Só peco por falta ou excesso
Não permeio:
Ou eu amo ou eu odeio.
Não se preocupe em consentir
Que se identifica com partes de mim
Ou a mim inteiro.
Não importe em ser marginal
Estaremos juntos até o final
Fazendo de nossos desvairados sentimentos
Poesias penduradas em nosso varal.


19 de agosto de 2011

Gente


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Hoje me permiti ser gente
Gente igual
E não diferente
Que se entedia
E que sente
Que chora
Que fica
E, às vezes, tem de ir embora.


Hoje permiti dar asas ao meu sofrimento
Pra que ele voasse e partisse
Para que eu não precisasse mais dele
Para mostrar-me um marginalizado:
É chegada a hora de seguir em frente.
Cabeça erguida!
É chegada a hora de colocar-se em meio à multidão
Ser parte de um milhão
Ser alguém igual, mesmo que tratado anormal.
Cabeça erguida!
É a hora de seguir com a vida...

Hoje e sempre gente
Hoje vou permitir-me o amor
Amor igual, porque não existe amor diferente
Com essa consciência, hoje posso amar como gente
Hoje posso amar e ser amado
Sem a necessidade de ser isolado

E isso tudo porque hoje vou me permitir ser gente
Gente igual e não diferente
Cansado de muros, explicações e tabus
Hoje eu sou como qualquer um
Hoje quero ser tratado como um qualquer
Hoje não sou meio homem, nem metade mulher

Hoje sou gente
Gente IGUAL e não DIFERENTE!