Copyright © Palavra-poeta
Design by Dzignine
Mostrando postagens com marcador sentimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentimento. Mostrar todas as postagens
23 de maio de 2019

Silêncios




Há tempos perdi a sutileza,
há tempos perdi a perícia
das palavras tecer a proeza
de captar quem o coração cativa

O desejo é o meu maior obstáculo:
a sua boca faz dele o meu susserano,
o seu corpo faz de mim dele vassalo.
Ver-te nu, em pelo, o desejo diz, sussurrando,
E meu desejo de saciar o desejo... eis aqui agora um escravo

Perco as palavras,
Troco as sílabas,
Erro as letras,
Confundo as rimas,
Sofro de silêncios,
Eu, logo eu, cantor sem fim de poesias

Há tempos - há de se dizer porém -
que o amor me virou o rosto,
revirado em desgosto,
não me dá um vintém.
Há tempos, eu assumo:
não amo ninguém.
E, assim sisudo,
de tempos em tempos,
sem por que, nem por quem
de morrer de amores procuro,
faz-se a semente,
cai-se o fruto,
não tão verde, tampouco maduro,
Pode-se dizer,
Qualquer um argumentar,
Por que lágrimas por palavras
sem fé delas o amor despertar?


6 de março de 2019

Ensinaram-nos a definição errada de amor



Crescer não é fácil. Amar também não. É o que dizem. E o que é o amor, afinal de contas? Todo mundo tem suas próprias definições, mas em uma coisa todos concordam: é compartilhar bons momentos com alguém que é especial. Todo o resto é acessório. Queremos a segurança de que esses momentos se repitam e aí criamos contratos, modelos e histórias. Mas não é o contrato, tampouco o modelo e nem a história. Ele é o momento, dentro do momento. O amor é quando você me olha nos olhos e congela o tempo. Quando ele passa, se torna saudade e quando a recordação é maior que a vontade de voltar novamente, o amor se torna lembrança. Quando o anseio é repeti-lo, transforma-se em expectativa e quando o medo de não repetir sufoca, o amor vira apego. E o apego é o começo do final do amor. Porque amor não vive no passado e nem é garantia, no futuro. Ele está ali, apenas no momento.

Sendo assim, não posso dizer que o amo se não estou te amando, pois não é amor o que eu sinto. É saudade de você. Tampouco posso afirmar que te amo quando sonho um futuro ao seu lado, pois expectativa não é amor. Não é amor a promessa (e a ação) de estar sempre junto a você. Isso é lealdade, quando ainda há afeto, e apego, quando o compromisso é maior que o amor. Medo da solidão, no segundo caso. A fidelidade não é amor, porque o amor não é sexo, apesar de sexo, às vezes, ser parte do ato do amor. E a fidelidade enquanto promessa é infrutífera. Lembre-se: o amor não é garantia. Sendo assim, o amor não pode ser sinônimo de dor, pois quando o amor acontece (e o amor só acontece no agora) ele não dá espaço para outra coisa a não ser ele mesmo!

Essa minha definição de amor é tenebrosa, eu sei, porque ela retira do sentimento toda a obrigação de perenidade. Todas as inseguranças e regras deixam de ser amor. Mas o amor é assim, efêmero, mas gratificante. Tudo que eu já disse sobre o amor tornou-se, então, mentira. Mas não se preocupe, tudo que nos ensinaram sobre amor estava errado. É triste ver que muitas pessoas ainda carregam a potencialidade de amar, mas são sufocadas pelos sentimentos que rodeiam o amor. O amor está além das definições e ele aceita tudo, menos que não seja recíproco. O orgulho não, o ciúme não, a insegurança não, o amor sim.

Eu não posso e nem devo prometer nada, mas já prometi demais. Não posso e nem devo esperar, mas já esperei. E não posso garantir que não serei afetado por tudo que cerca o amor. O mais certo é que eu seja. Peço paciência. Alguns esperam mais do amor do que outros. Mas quando estou nos seus braços, o tempo ainda congela. Vejo que ainda te amo. Nada mais importa.



Publicado originalmente em © obvious: http://obviousmag.org/amoral/2016/02/ensinaram-nos-a-definicao-errada-de-amor.html#ixzz5hQyHtIyw
1 de dezembro de 2017

Amores líquidos



Eu passeei as mãos pelos cabelos dele. Ele ronronou, como um gato. Pelo hermoso. Fixei meus olhos em seus olhos castanhos, deitado ao seu lado. A chuva caía. Cenário de filme de amor. Ensaiei me levantar, mas ele segurou meu braço:

- Fica.

Fiquei. Ele continuou a me olhar. Em dias de carência como esse, uma chuva, um par de olhos castanhos que não desviam dos nossos e um chamego são a mistura perfeita para um desastre.


- - - 

- E como se conheceram?

- Numa noite de novembro. - eu disse.

Não contei que eu sabia a data. Não mencionei que eu sabia a roupa que ele estava, as palavras que havia me dito, como havia sido o seu toque no meu corpo, como dormimos abraçados a noite toda e como ficamos o dia e a tarde de domingo juntos.

Não contei como foi o pedido ruidoso e silencioso. Não contei da camisa preta e da chuva quando achei que era o fim, mas não foi. Não, não poderia falar sobre todas as suas manias, tiques e como ele beijava a minha mão.

- Mas nem lembro mais dele.

- - - 

Eu liguei o celular pela milésima vez. Vi seus olhos verdes e seu cabelo loiro na foto do perfil do WhatsApp que havia acabado de me responder.

Seus olhos verdes.

Ele estava lá, na porta. Riscando o tênis no chão, sozinho em meio a multidão. Mas ninguém ali tinha seus olhos verdes. Ele me viu. Sorri. Ele sorriu. Seus olhos verdes brilharam.

Pronto. Fui fisgado. A merda tava feita.

- - -
Ele insistiu.

Eu dei pra trás. Já estava deitado.

- Tô aqui na porta da sua casa.

Louco! Desci e o beijei, dentro do carro. Ele colocou Adele para tocar e a sua mão direita na minha coxa esquerda e sorriu pra mim. E ali, dentro do carro, eu já tinha a poesia da nossa noite pronta na minha cabeça.

- - - 


"Baby, this is what you came for..."

Ele tocava violão. Ele era bonito e tinha uma voz bonita. A gente conversava e sorria. Mas ele era de Sagitário e eu tinha 21.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 
6 de novembro de 2017

Por onde andas?

"A emoção acabou, que coincidência é o amor. A nossa música nunca mais tocou."
Codinome Beija-Flor 



Onde foi que eu me perdi?
Eu me perguntei. Eu me pergunto, com a mesma dúvida desoladora dos últimos dias. Onde foi que eu me perdi?
Lembro da inocência dos dias tranquilos, onde os cafunés eram abundantes e se excediam às cruéis despedidas. Nesses dias o amor (ainda) existia. E mesmo quando acabava, a esperança não dava lugar ao vazio. Há sempre uma nova estrada a ser percorrida.
Onde foi que eu perdi?
O encanto sutil dos encontros, o ajeito suave do cativar, a lentidão de se desnudar a alma e a alma alheia ser despida. O toque sincero e honesto nas pontas dos cabelos, o beijo... Os beijos! Ah, as incursões aos lugares onde a paixão poderia desabrochar, o calor dos corpos que se aquecem e o emaranhado de poesias que o amor traz.
Por onde andam os meus sentimentos?
O que foi feito do meu coração?
...
Pois há que se dizer que os cacos estão jogados. Perdeu-se a poesia dos últimos dias e a arte, que era o amor, era o amor, foi-se embora. Estamos blindados. Cadeados. Muralhas.
28 de agosto de 2017

Deixa


Deixa crescer
Assim, sem tanto alarde,
Florescer 
Em flor, amor, 
Pele cor de pêssego
Paixão de fogo
E olhar de desejo. 
E que não fiquemos assim,
Tão covardes, 
Com esse súbito sentimento
Que nos invade.

Deixa.. 
Deixa arder em nós, 
Cala a minha voz
Com seu beijo 
E adoça o meu olhar com teu cortejo 
Olhos de ensejo, 
Que o amor é eterno, 
Mas o nosso toque é efêmero.

Deixa...
No meu rosto, 
No meu corpo, 
Nas dobras todas do meu pescoço, 
Um carinho, 
Um chamego, 
Aconchego
Deita nos meus ombros e diz pra mim todos os seus medos.
Deixa...
Eu enrolar os seus cabelos, 
Matar sua insegurança com meus beijos 
E ser seu, 
Por inteiro.

Deixa?
Deixa?
Deixa... 
Percorrer a estrada
Com suas mãos atadas às minhas 
E selar nossos lábios com poesias, 
Olhar as constelações,
Dormir de conchinha
E casar nossos sonhos 
De ser uma família.

Deixa...
Eu ficar solitário 
Quando não quiser companhia?
Deixa eu cantar seus méritos nessas pobres rimas?
E zelar pelo seu sono 
Quando a insônia insistir?
E eu prometo que serei seu porto seguro
E eu deixo...
Eu deixo minha liberdade não ser um empecilho, 
Eu não deixo meu jeito frio ser nosso inimigo, 
Eu luto por você. 
Você luta comigo? 
Pra gente não desistir,
E quando precisarmos ir, 
Que seja dito.
E eu não vou sumir 
Porque eu não desisto.
Serei seu, 
No ontem, no agora e no infinito.

Você só precisa deixar. 
Deixa?
16 de junho de 2017

Desromantizando o amor



Ninguém é obrigado a te fazer feliz. Você não precisa de ninguém para ser feliz. O amor que você dá e os cuidados que você dispensa a alguém não tornam-se, automaticamente, uma dívida: ninguém é obrigado a pagar pelo carinho que você compartilhou. O amor não é uma moeda de troca. 

Você não "precisa" de alguém e ninguém "precisa" de você. O amor não é uma prisão sem chave: você pode sair quando não estiver se sentindo bem e a outra pessoa também não é obrigada a ficar onde não quer. Você não precisa suportar os defeitos de ninguém, assim como ninguém precisa suportar os seus defeitos, se toda essa convivência faz com que no final do dia ambos estejam saturados. Você não é obrigado a estar, ficar ou tornar-se infeliz por "amor a alguém". 

Nenhuma garantia será suficiente para aplacar a sua insegurança: contratos, promessas de amor eterno e cerceamento da liberdade não são amor. Você não precisa deixar de fazer as coisas que gosta porque está com alguém. Você não precisa sacrificar os seus sonhos, desejos, vontades e necessidades por alguém e ninguém precisa sacrificar necessidades, vontades, desejos e sonhos por você. Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas que você porque "se apaixonou por você". Amar não é antônimo de liberdade e sinônimo de sacrifício. Amor não tem que rimar com dor. 

Se alguém pede que você se afaste das pessoas que você gosta "por amor", afaste-se dessa pessoa. E, nunca, nunca, nunca abandone os seus amigos por influência das pessoas com quem você se relaciona. Amores vem e vão, mas dizem que as amizades verdadeiras permanecem ao longo do tempo. 

Ninguém nunca vai corresponder às suas expectativas e você nunca corresponderá às expectativas de ninguém. Você não precisa se adaptar às expectativas de alguém: é necessário, apenas, respeito. Respeito pela história da pessoa com quem você se relaciona, que tem uma vida que não depende de você. Amigos que ela conheceu antes de você, sonhos que ela teve antes de te conhecer, pessoas com quem ela se relacionou antes de você e talvez ainda mantenha contato, uma família que sempre estará lá, quer você queira ou não, e uma vida inteira pela frente, que seguirá, com ou sem você. Você não é insubstituível na vida de ninguém, mas será sempre inesquecível se conseguir manter o interesse, respeitando a personalidade, a história, os amigos, a família, os sonhos e a liberdade da pessoa que, hoje, você ama. 

Mas o amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. Repito: o amor não precisa ser eterno. E se ele acabou, não quer dizer que ele nunca existiu. 

Uma relação não se faz só de amor e o amor, somente, não consegue sustentar uma relação. É preciso disposição, respeito, muito respeito, desapego e honestidade. É preciso disposição porque às vezes a outra pessoa vai te cansar e você, inevitavelmente, vai cansar a outra pessoa. Mas se ainda houver disposição vocês vão conseguir se relacionar. É preciso respeito, muito respeito. Respeito é primordial. Respeito pela história da pessoa com quem você se relaciona, que tem uma vida que não depende de você. Amigos que ela conheceu antes de você, sonhos que ela teve antes de te conhecer, pessoas com quem ela se relacionou antes de você e talvez ainda mantenha contato, uma família que sempre estará lá, quer você queira ou não, e uma vida inteira pela frente, que seguirá, com ou sem você. Você não é insubstituível na vida de ninguém, mas será sempre inesquecível se conseguir manter o interesse, respeitando a personalidade, a história, os amigos, a família, os sonhos e a liberdade da pessoa que, hoje, você ama. É sempre bom repetir. É preciso desapego, porque ninguém consegue preencher completamente ninguém. Você nunca será o centro da existência da outra pessoa e é saudável que você não coloque a outra pessoa no centro da sua vida. É preciso desapego porque ela olhará para o lado, por mais que você tente tapar os seus olhos. Ela irá conviver com outras pessoas, por mais que você tente mantê-la na torre do castelo do seu amor. Essa pessoa poderá envolver-se com outras pessoas, sexualmente, afetivamente, e isso não quer dizer que ela não te ame. A prisão não garante a perenidade do amor. É preciso honestidade e, sobretudo diálogo, porque pessoas ainda não possuem o dom da telepatia. As pessoas não vão adivinhar o que você sente, deseja e precisa, a não ser que você diga, diretamente, sem palavras, meia voltas, indiretas e enigmas. Por mais que alguém te conheça, anos e anos, décadas, essa pessoa nunca vai adivinhar. Discussões são necessárias, mas brigas devem sempre ser evitadas. 

Não existe a pessoa perfeita, não existe alma gêmea, ninguém tem a "tampa da panela" ou a "metade da laranja" porque somos pessoas completas. Imperfeitas, é verdade. Carentes de amor, cuidado, carinho, proteção, chamego, diálogo, sexo também. Mas ninguém é obrigado a nos oferecer nada disso e não iremos morrer se alguém recusar as nossas propostas em compartilhar todas essas coisas. 

Não sou uma dessas pessoas que fingem uma completa desconstrução e o mais perfeito dos desapegos. Sou também imperfeito. Também sinto ciúme, carência, raiva, insegurança, medo de perder e tristeza quando as pessoas que amo têm de ir. Mas mantenho todas essas coisas na cabeça, acreditando que, por mais clichê que possa parecer, uma hora temos que aprender que é melhor estar só, do que mal acompanhado. 


12 de junho de 2017

O colecionador de estrelas


Ele colecionava estrelas. Estrelas são essas coisas que brilham e ofuscam os olhos. Outras vezes se movem e as pessoas juram que elas caem do céu. Enfeitam a escuridão e iluminam as horas sombrias. São fonte de poesias e musas inspiradoras. As nuvens tapam sua luz, mas não escondem o seu brilho. Mesmo a Lua, em todo o seu esplendor, só faz refletir o seu iluminar. 

Ele havia sido a estrela da vida de alguém. As pessoas não se esquecem das estrelas e eis que não se esqueceriam dele, mesmo que andasse por aí com a pretensão de não querer se apaixonar. Tinha a ousadia de não se envolver. Quando todos queriam ser estrela, ele queria a calma de um céu preto. Ele já havia sido a estrela na vida de alguém. Sabia, com a certeza brilhando nos olhos, que ser estrela é um trabalho de muita responsabilidade. 

Ele colecionava estrelas. Estrelas são essas coisas que brilham e ofuscam os olhos. Apertam e enternecem o coração. Têm o calor das mãos que seguram outras mãos e andam, mãos dadas, lado a lado. Fazem cafuné nos cabelos e dormem de conchinha para aquecer nos dias frios. Esquentam o corpo, pele na pele. São portos seguros. Enfeitam a escuridão e iluminam as horas sombrias. São fonte de poesias e musas inspiradoras. Os dias ruins tapam sua luz, mas nunca escondem o seu brilho. Outras vezes se cansam e as pessoas juram que elas acabam. Mas mesmo o fim, em todo o seu esplendor, só faz refletir o seu iluminar. Estrelas nunca morrem. Explodem em lembranças de amor. 
3 de abril de 2017

Pequenas carências



Estar bem comigo mesmo não me exime de sentir falta. Eu sinto, sem vergonha de assumir.

Eu sinto falta... de receber uma mensagem de bom dia, andar de mãos dadas, deitar no peito de quem eu amo e ouvir seu coração bater. Essas coisas simples. Sinto falta até de coisas que há tempos não tenho: alguém que me abrace, me ame, pegue na minha mão e diga “tá tudo bem”, quando eu sei que não está. Nós dois sabemos, mas um abraço, um beijo e um pedaço de melancia podem fazer o mundo parar de girar por alguns minutos.

Sinto falta de tirar a capa de “nada me atinge”, dormir de conchinha e alguém que sorria ao receber uma mensagem minha. E pare o que estiver fazendo por alguns segundos para garantir que eu sei do sorriso, pela resposta rápida.

Alguém que me encaixe nos cinco minutos da sua agenda lotada de terça-feira. E diga eu te amo com orgulho, tão bêbado que, mesmo eu não bebendo, me embriague com seu hálito, na sexta-feira ou quem sabe mesmo no sábado.

Não é preciso muito para eu me apaixonar: sinto falta de alguém pegar as minhas mãos e sair andando por aí. A caminhada é mais importante que o destino. Ser o cara que eu tenho orgulho de chamar para um feijão tropeiro com a família e que minhas amizades assumam, talvez a contragosto, que é a pessoa certa pra mim.

Eu realmente sinto falta, alguns dias mais que outros e em uns, com tanta força que parece que me falta um dente.

Enamorar pelos seus defeitos e amá-lo após as brigas. E não ter medo de perder quem a gente ama.

Sinto falta dos abraços de urso, beijos de halls de menta, a preguiça dos domingos e os casacos dele que ficam melhores em mim do que nele.

Quando eu penso nesses momentos não me vem um rosto a mente, mas sinto falta de chamar esse cara de rosto desconhecido que anda por aí de namorado. E ser seu companheiro e melhor amigo, mesmo (e mesmo se houver) depois do fim.
5 de fevereiro de 2017

Vida

Eu cresci e me deram um giz para rabiscar um caminho. Meu caminho, disseram. A gente cresce e para de desenhar corações. Isso não quer dizer que paramos de amar. Nós apagamos os desenhos da gente voando, o que não significa que não sonhamos mais. A gente não reparte o giz com a mesma facilidade. A confiança não morreu. No entanto, eu estaria mentindo se eu dissesse que nada mudou.

Você e eu, nós todos, já vimos a morte, a vida, o amor, o beijo, o abraço, a lágrima, a saudade, a rejeição, o adeus, o reencontro. A gente morre alguns dias, partes de nós apodrecem para dar lugar a outras, mais bonitas ou mais feias. O giz aperta na mão, porque nem sempre o caminho é reto. O meu caminho é uma linha que segue, mas às vezes volta, para, respira, se apaga, mas segue. Segue. Firme e forte. 

Essa linha - que de linha só tem o nome que dei agora - é o meu caminho. Meu. Ela às vezes se cruza com outras linhas, mas elas nunca se misturam. Viver é uma escrita de um giz só. Isso é lindo. E terrível. A gente cresce e engole isso. Depois de tudo, eu continuo sorrindo e quando eu choro, sei que vai passar. Eu tenho o privilégio de otimismo e não reclamo. Tem gente que não tem nem isso. Eu sempre olho a linha e sei que hoje estou melhor do que ontem. Chamo isso de felicidade. A linha, cheia de curvas, que segue. Segue. Firme e forte. 



22 de janeiro de 2017

A lista de poesias


- Tudo se resume a um pouco de fome. Eu sou honesto: como muito. E aqueles que tem refeições contadas preferem me deixar de dieta. Tem até uma palavra pra isso.
            - Promíscuo?
            - Não sou muito bom em etimologia, tampouco tenho um milhão de verbetes na minha cabeça, mas essa palavra não me soa bem aos ouvidos.
            - Eu entendo. Já caiu no mau uso.
            - Sou hedonista, não nego. Aprecio o toque, suave, como uma seda, de dedos no meu corpo, que se arrepia e estremece. Todo. Pura poesia. Já viu dois corpos nus juntos? Caramba, tem coisa mais bonita?
            O outro bebeu o vinho. Parecia encabulado. Pegou o cardápio e fingiu olhar as opções de comida.
            - É bonito mesmo.
            - E eu não sei? – suspirou.
            O outro olhou com mais atenção, por cima do cardápio. Vestia uma camisa branca, abotoada até o peito, cujos pequenos pelos brotavam da parte desnuda. A barba preta contrastava com os olhos esverdeados, que agora encaravam algum ponto longínquo, e quase escondia a boca de lábios pequenos, mas apetitosos. Sorriu e os dentes brancos brilharam, refletindo as luzes dos postes daquela rua de pedra sabão. O hedonista continuou o suspiro. Talvez porque estava trajando uma roupa muito formal para aquela ocasião: um blazer preto e uma gravata, da mesma cor. A camisa social, azul clara, estava perfeitamente passada, sem um mínimo resquício de dobra. A calça social preta cobria o sapato engraxado durante vários minutos. Percebeu o desconforto da companhia e afrouxou a gravata.
            - E o que devemos pedir?
            - Carne!
            O hedonista afirmou, com convicção. Depois parou. Repensou.
            - Você come carne, não é? Ultimamente todo mundo é vegetariano. – sorriu.
            Foi pegar o cardápio e, sem querer, encostou na mão do outro. Recuou, mas os dedos dele o puxaram. Repousou a mão em sua mão e olhou para o chão, instintivamente.
            - Não que eu tenha algo contra quem seja vegetariano, que fique bem claro.
            O outro soltou a mão e arrastou a cadeira para o lado. Estavam mais próximos.
            - Algumas pessoas falam muito quando estão nervosas. – olhou para o lado, encarando-o nos olhos. – É o seu caso?
            - Talvez...
            - Concordo. Tudo se resume a um pouco de fome. Eu tenho uma lista, em casa. Sempre que aprecio, digamos, uma nova comida, eu coloco. Não porque eu quero aumentar a lista, mas porque sou um pouco obsessivo de perder o controle e o número ou esquecer. Porque são experiências, mas acima de tudo, experiências com outras pessoas, não é? – não esperou o hedonista responder. – A primeira vez que eu dei por mim que a lista estava grande eu fiquei um pouco... Culpado. E chateado, pra falar a verdade. Afinal tudo aquilo que falavam se tornou verdade. Não passamos de sem vergonhas que só pensam naquilo.
            Pegou a taça de vinho. Tomou um ou dois goles. As suas mãos voltaram a aquecer as mãos do hedonista. Este nem piscava.
            - A lista se mostrou uma boa ideia, no final. Eu tinha todos os nomes, em ordem cronológica e linear. E sabe o que eu percebi? – era uma pergunta retórica. – Todas aquelas pessoas tiveram um pouco de mim e eu tive um pouco delas. Mas isso não banaliza o ato. É, como você disse, poesia. As melhores são aquelas que te tocam. Há as clássicas, que deliciam pela comodidade de percorrer os mesmos caminhos e, mesmo assim, provocar os mesmos arrepios. Há as eróticas, carnais, que arrepiam todo o corpo pela agressividade e despudor. Algumas são inteligentes e exercitam o cérebro. E há aquelas que saciam o corpo, a mente, os olhos e o coração. Talvez por isso, meu caro, falamos da nossa vontade de “fazer amor”.
            O hedonista se arrepiou. As mãos dele se desvencilharam das mãos do outro e procuraram por alguma parte do corpo que estivesse desnuda. Encontrou uma brecha na camisa e subiu as mãos pelo dorso.
            - Quem escreve, escreve mil e uma poesias e a quantidade de poesias não define um poeta. Alguns saciam-se com apenas uma. Outros precisam de muitas. Quem somos nós para julgar as poesias dos outros?
            - Pois é. Eu não rejeitaria uma nova poesia.
            - Que bom, meu caro. A caneta está ansiosa para mais um verso nas estrofes da minha lista.




15 de janeiro de 2017

Crônicas de malícia


Ergui o copo. Ele também ergueu o seu. Brindamos.
- Aos corações partidos!
- A novos recomeços, meu caro. Histórias de amor não são contos de fada.
Bebi o meu refrigerante. Ele bebeu a cerveja e me olhou maliciosamente. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. Por que eu nunca me canso disso?

-

Passeei a mão pelo meu cabelo e enrolei a ponta nos meus dedos.
- Quantos anos você tem mesmo?
- Vinte e dois.
Ele deu um sorriso de canto de boca. Eu olhei para baixo e sorri também.
- Parece menos.
Olhei nos seus olhos.
- Estou muito velho pra você?
Ele passou a mão na barba e sorriu, malicioso.
- Nem um pouco.

-

Falamos de amores passados, profissões desejadas, sonhos e desafetos. Falamos da situação econômica do país e do futuro incerto. Falamos do caos e das manias que inventamos para que tudo esteja em ordem. Conversamos sobre as decisões e indecisões. Analisamos as curvas da boca, os olhares, os tiques. A noite toda passou em um segundo. Só olhei no relógio – o momento derradeiro – quando já era a madrugada de outro dia. A Lua pairava, brilhando, sobre nós. E então falei do seu efeito sobre mim, como se eu fosse um licantropo qualquer. Ele sorriu. Não acreditava nessas coisas de astrologia, mas tinha um jeito singular de sustentar o olhar que me deixava desconcertado. Apertava o passo sem desajeito e arrumava o relógio no pulso com convicção. Tinha um quê de uma confiança colérica e um não-sei-o-quê de uma calma melancólica que pareciam a mistura perfeita para um homem.

-

- O amor é um jogo.
- Não discordo.
- Você sabe jogar?
- Só nos meus termos.
Ele jogou a carta. Olhei as minhas. Sorri, desapontado, e coloquei todas elas na mesa.
- Começou bem.

- 

- O que você faz da vida?
- Eu me considero um escritor.
- E sobre o que escreve?

- Histórias de amor. Eu escrevo as melhores histórias de amor na vida de outras pessoas. 
1 de dezembro de 2016

Desejada solidão

Eu quero o individualismo libertador de um quarto desarrumado,
Quero os pés descalços
E roupas jogadas
A caminho do chuveiro do banheiro.
Quero andar nu
No apartamento solitário
E rabiscar as paredes de tinta
Na estante da solidão.
Eu e eu,
Sozinhos enfim,
No ensurdecedor barulho de um pop
Que só eu gosto
E de uma MPB que só eu ouvi falar.
Contas na mesa,
Chave na cadeira
E o suave odor de mil e um perfumes,
De mil e uma noite que se arrastaram
De mil e um gemidos que não sussurraram
Sob a cama arrumada,
Bagunçada.

Cozinha,
Sala de estar
E escada.
Branco de solidão,
Azul de desalinhada.
Eu e eu,
Só meu
ESPAÇO!
26 de novembro de 2016

Pé no chão

Seus olhos castanhos me enganaram,
Meu coração inexperiente me traiu 
E meu corpo sedento foi à perdição. 
Eu ancorei no deserto, 
Lutando para não me afogar
No vazio de certezas
E na imensidão de mágoas e medos. 
Não deixei as lágrimas caírem,
Mas abracei o chão de pedras,
Certo de que lá era o meu lugar, 
Onde você me deixou. 


Pois bem! 
Atravessarei as dunas,
O vento irá bagunçar os meus cabelos
E a areia machucará os meus pés
Mas ninguém verá o meu sangue. 
Você não verá o meu sangue, 
Porque eu não quero ajuda para estancar a sua ferida. 
Eu quero voar!


28 de setembro de 2016

Notas sobre ele



Tem uma ressaca intelectual que te pega
E te extasia,
Mais do que o toque do corpo
E o balançar ritmado do gozo,
Mas que regozija.
Tem um toque que incendeia
E acaricia,
Alivia
Mesmo em meio a tempestade que define.



25 de setembro de 2016

Seus olhos castanhos


Eu poderia, nestes versos,
Romantizar-te,
Poetizar-te,
Pintar seus olhos castanhos de diamante escarlate
Mas não preciso pintar mais
Gosto dos seus olhos castanhos.


12 de junho de 2016

Histórias de amor. Ridículas




"O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto.
-"As Velas", de Rubem Alves


- Eu não sou deste mundo. – revelou, já no primeiro encontro.

O outro sorriu. Um sorriso bonito, uma covinha que embelezava ainda mais seu rosto. Talvez ele concordasse, já naquele momento, mas nada disse. Fez: pegou a mão do outro e aninhou dentro de suas mãos. Olhou dentro dos seus olhos. O amor é tão clichê... Mas não era amor naquele momento. Aquele friozinho na barriga. Beija, não beija. Onde coloco as mãos? Ansiedade, talvez.

Começaram a ler as estrelas. O astro de um era guerreiro, Marte, Ares; o outro tinha como sina a doçura da beleza e da calma de Vênus, Afrodite, talvez. O segundo duvidou, acostumado a interpretar o céu. “Está errado, só pode”. O outro sorria. “Talvez eu seja um guerreiro desarmado”. Não deu outra. Ascendente Câncer. O outro jurava que isso explicava. O filho de Ares só concordava. Tudo que ouvia dizia muito de si.

Os encontros tomaram os dias da semana. Antes, só se viam aos sábados e domingos. Talvez na sexta. Essas coisas a gente não controla. Definitivamente não. Um deles soube. O filho de Ares. Não queria cair. <em>Fall in love</em>. Mas o outro tinha um perfume de tons amadeirados que impregnava a sua roupa e o deixava com um sorriso idiota de canto de rosto quando levava a trouxa para lavar. Tinha uma mania esquisita de dormir com o dedo na boca e esquecer de colocar o cobertor e era tão lindo, tão lindo, tão lindo dormindo e ele sempre olhava e o abraçava e o beijava e o outro nunca acordou. O outro tinha uma cara fechada de raiva que era tão bonita e ele sempre o irritava só para rir. E ria, ria, ria. Caiu de quatro. Cair de quatro não era para ele. Ele não entendia, mas a queda era deliciosamente reconfortante. A gente se acostuma com esse tipo de coisa.

O “outro” nem ligava. Filho de Afrodite, a deusa do amor. Para ele era natural. E por que o amor deveria ser uma luta, afinal? Se era um enroscar suave de corpos, um café quente em uma manhã chuvosa de um domingo friento, um abraço apertado na despedida e uma mensagem de “eu te amo” no meio da aula na metade da semana que não tinha fim.
Mas sempre há a guerra. A trava. "Eu não queria assim". "Você não deveria ter feito isso". Se pudesse os dois apagavam esses incêndios. Aboliam. O passar dos anos gera um passo cadenciado de saber onde não pisar. O meu espaço e o seu. Basta permitir. O amor é isso, né? Permitir. Deixar o outro entrar e não ter medo. Eu não sei você, mas eu sinto falta disso. Um cafuné. Um abraço apertado que sufoca e não solta, por favor, não solta, quero morar dentro desse abraço e você se agarra naquele abraço e o outro se afoga no seu calor. Já deram um abraço apertado, assim, verdadeiro?

O sexo muda, todo mundo dizia. Quem dera soubesse. Com o amor, eu digo. E mudou. Eles aprenderam, afinal. Quais os botões certos. E que a orelha é o ponto fraco de um e que apertar a bunda é quase matar o outro. Dormir de conchinha (antes era tão desconfortável) era a forma sexual mais pura e recompensadora. “Você dorme hoje na minha casa” era um convite ao delírio. Às vezes nem se convidavam. Com o passar do tempo nem precisava mais. Era uma certeza. PRECISAVAM dormir juntos. Depois daquela festa, a noite toda, os corpos cansados. Chegavam em casa e dormiam um em cima do outro. Às vezes os corpos ainda aguentavam mais algum tempo de uma dança maluca de beijos, braços e amassos, mas sempre, sempre, um estava abraçado ao outro, no final. Denominaram “a arte de dormir em conchinha”. Os dois brincavam que um dia colocariam como habilidade no Linkedin.


O senso comum já aceitou que sexo vicia. Depois que começa é difícil parar. Mas são poucos os que assumem que amor é uma droga. Aquele amor de verdade. Aquele que te deixa de quatro, metafórica ou literalmente, e dá aquela saudade. Depois que você experimenta, você nunca mais é o mesmo. E você quer mais. Algumas pessoas se negam, porque está todo mundo assustado, com medo dessa droga. A política anti-amor já fez adeptos demais. Cair de quatro é sinônimo de humilhação. “Eu não sou desse mundo”, já dizia, no primeiro encontro, um dos personagens deste conto. Diz isso sempre quem sente e não tem medo. Que sabe que todas as cartas de amor são ridículas e que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas, como bem dizia Fernando Pessoa.

27 de maio de 2016

Fachada



Mudado, eu nunca mais fui o mesmo
Você sabe
Eu te odeio
E te amo
Cometo o mesmo erro
Que condeno
O orgulho é fachada
E o prédio já desabou
Você esqueceu:
Acabou!

Cato os cacos
E farrapos
Junto os trapos
Quebro os trapos,
Choro os laços quebrados
Mudaria os versos,
Desesperados, 
Se soubesse se ainda me ama
Porque o amor que tive
Ainda está intacto. 

Quando é que você vem?
Vai deixar a mala lá fora?
E esquecer o que não te convém?
As mãos que não são as minhas,
Que há anos percorrem teu corpo.
Meu corpo, 
Que não é outro,
É o mesmo que se encaixa ao teu
Nas noites de sono.
Esqueceu?
O sorriso que te pertenceu? 
O olhar que te enterneceu?
Os dedos que enrolaram seus cabelos,
Os lábios que molhavam os seus beijos,
O intelecto que o enrijeceu.
Não finja que esqueceu. 
Venha buscar, seu bobo,
Aquilo que nunca deixou de ser seu,
Não se contente com pouco. 


22 de maio de 2016

Chamas



Eu não sei morrer sozinho
Eu não sei morrer sem chamas
Eu não morrerei sem lágrimas.
Queimo, solitário e estranho,
Vazio e incerto.
Cruel destino!
Eu não sei morrer sozinho,
Eu, só cinza, sem carinho,
Fogaréu de sensação.

Olhe o fogo,
Fumaça,
Brasa,
Invisível e indiscreto,
Engana,
Engana,
Engana,
Engana!
Grita e tapa a boca.
Eu não queimo sem arder.
Eu não sei morrer,
mas definho sem calor
sem ter a quem recorrer.
Eu não sei,
não sei, não sei, não sei, não sei
Morrer!
Sozinho
Me deixe arder com você


9 de abril de 2016

Sede


Foi efêmero, passageiro, eu sei
E eu sou um louco por querer tanto outra vez
Mas sei quem sou
E não sei fugir da minha sede
Pois sei que quem cede pode se saciar.
Fui um tolo? Talvez
Mas quem nunca se arrependeu do que não fez?

É loucura, carência
Talvez
Não precisa repetir o que já incorporei
Mas é os olhos nos olhos
E o toque?
E o laço do meu corpo
No seu corpo
Enlaçado o meu rosto no seu pescoço
O meu braço no seu dorso,
Dois corpos,
Sendo cobertor um do outro.
Isso tudo é pouco?
Pouco o suficiente para eu ainda ser o louco?
Ou é o bastante?
Bastante o suficiente para que aconteça novamente
12 de fevereiro de 2015

Noite de amor



Percorri o seu esplendido sorriso enquanto observava os seus passos,
Aguardava ansiosamente o seu toque-primeiro
Mas, com calma, respirava o seu cheiro
Até o momento em que me tomou em seus braços,
Na escuridão do seu quarto,
Na sofreguidão de seus abrasadores beijos.
Eu fui dele:
Um homem entregue a outro homem por inteiro.

Seu toque incendiou o meu corpo,
Sua pele, nua, desnudou o meu fogo
E a cama tornou-se o mundo,
Seu abraço, a galáxia,
Nossos corpos, o universo completo.
E, por mais que o sexo fosse um meio,
Confidenciou-me, dentro dos seus braços:
“É isso que importa!”,
Conexão, o fim derradeiro.

Entregues, corpo e alma,
Juntos, a noite inteira,
Prazeres infinitos,
A primeira de um primeiro

Na noite de amor inesquecível.