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22 de dezembro de 2019

Pele com pele



Pele com pele,
poema,
Seus lábios de mel
e o doce aroma que é seu,
o céu da sua boca,
estrela,
Cai do céu e incendeia
O meu corpo, sem roupa,
tapete, carpete, toalha, meia,
Peças jogadas,
no chão, colchão, areia
Duro como pedra,
Mole como pluma,
Entregue
como... só você consegue.
Torpe,
cruel,
me provoca e me arranha,
cê me bate, eu apanho,
cê cospe, eu engulo
e o seu toque me percorre,
seus dedos já me conhecem
e a sua boca não diz nada,
já diz tudo
Arrepio mudo,
Grito,
Peço arrego,
aconchego,
afeto, tato
cê me abraça, estremeço,
cê me ama, não me esqueço
E cê dentro de mim,
eu dentro docê.
Doce,
Suave,
Forte
ou violento
é o nosso ato de amor, nego,
é sexo,
vem sem moderação e sem receio.
28 de setembro de 2016

Notas sobre ele



Tem uma ressaca intelectual que te pega
E te extasia,
Mais do que o toque do corpo
E o balançar ritmado do gozo,
Mas que regozija.
Tem um toque que incendeia
E acaricia,
Alivia
Mesmo em meio a tempestade que define.



23 de dezembro de 2014

Insônia



Tudo está rodando. As minhas mãos tremem. A sensação não é tão ruim. Inebriante. Estimulante. Eu poderia continuar até a eternidade fazendo isso... Com você. Não com esse qualquer que faz estas caretas idiotas. Empurro a cadeira. Chuto a mesa. Pego as minhas roupas no chão. Abro a porta. Olhando para um ponto fixo na parede da sala, grito: “Sai daqui!”. Não tenho tempo pra explicações. Ou talvez isso tudo se passa na minha mente. Porque continuo lá, entre um orgasmo fingido ou desejado. Efêmero, em ambos os casos. Coloco a minha cueca e finjo escutar tudo o que o outro fala. Palavras, palavras, palavras. Como se eu me importasse. Como se algo realmente importasse.





“Que nome estranho!”. Vejo a foto dele no celular. Um chapéu na cabeça, moreno, um sorriso de tubarão na rosto. “Bonitinho”. “Você vai adorar ele, Gui!”.

Um beijo sufocante. Suas mãos percorriam e apertavam o meu corpo. Eu não resisti e comecei a percorrer todas as suas curvas. Detive-me nos botões da sua camisa e no zíper da sua calça, meus lábios sufocados nos seus. Um calor abrasador. E então...

"Você é vegano, né?". Olhei pra janela. O sol iluminava lá embaixo. Olhei pra ele e sorri. "Não, por que?". "Sei lá. Achei que você fosse". Sim, eu vegano e ele comprou lasanha quatro queijos. Sorri baixinho, lembrando da noite anterior e olhando o cara mais lindo do mundo cozinhando pra mim. 

Nós nos deitamos naquele chão frio. Exaustos. Eu me deitei em seu braço e ele me abraçou. Olhamos a janela. Por alguns minutos, o tempo para. A paixão nos preenche. Tudo o que importa é o calor dos seus braços.

“... E eu queria dizer que te amo”. Sorri, emocionado. O primeiro eu te amo. “O primeiro de muitos”, eu pensei. Guardei o meu celular e olhei para o infinito. A vida é mesmo muito boa. O sorriso insistia em continuar no meu rosto e eu não fazia nem um pouco de questão de tirá-lo.

 “Você aceita namorar comigo?”. Meu coração apertou, dentro do peito. Mesmo o seu hálito de álcool não quebrava a magia do momento. Mesmo a sua afirmação extremamente vergonhosa e constrangedora. Acho que eu balbuciei um ‘O quê?!?’. Eu me assustei, sem dúvidas. “Sim, eu aceito”. Você me abraça, na cama. Eu, o cabelo totalmente desarrumado e com a cara de quem acabou de acordar (literalmente) e você, bêbado, acabado, cara de quem acabou chegar de uma festa (literalmente).

“Esse está sendo um dos melhores carnavais”. Será? Porque o meu sim. Nós dois, aqui, sem ninguém. Eu, dentro dos seus braços. Dormindo e acordando com você. Passeando com você. Eu beijo você e dou um sorriso. “Tô com fome!”. Vou para a cozinha e, enquanto bebo água, olho fixamente para qualquer ponto e sorrio. A alegria não cabe dentro do peito. Como é bom amar!

“É sua!”. Eu seguro a minha respiração. Eu havia prometido que não usaria, mas aquela aliança era tão linda. Eu olhei pra ele e o abracei. Tudo tão perfeito. O melhor namorado do mundo.

“Nossa, essa mulher demorou demais!”. Meu coração a ponto de sair do peito. Finalmente. Meu namorado, conhecendo a minha família. Eu observo atentamente a reação da minha mãe. Ela sorri e o abraça. Minha vó, querida, amada. E, então, minha tia. “Finalmente!”. São amigos de infância. Tudo como em meus melhores sonhos. Esboço um sorriso de canto, talvez imperceptível. Talvez não.

“Eu sei que você quer que eu coloque a minha camisa azul”. Não queria assumir, mas realmente. Ele deixa a camisa desabotoada. Não falo nada. Mas ele está lindo. Esboço um grande sorriso. No final da noite, eu coloco a minha cabeça em seu ombro e escuto ele cantar Elis Regina. Todos felizes. Inclusive eu.

“Ele adora jogar na minha cara que eu não gosto dele, mas sabe como ele me pediu em namoro?”. Adoro ver a reação dos seus amigos quando falo isso. Eles sempre entram pro meu time. E com as duas não foi diferente. O moço não foi diferente. Mas eu gostava de ver como ele me abraçava, orgulhoso em dizer que eu era seu. Eu sempre me encolho naquele abraço e dou um sorriso. Este é o papel que eu nasci para interpretar.

“Me desculpa, amor. Eu fui um idiota. Me desculpa, por favor”. Foi só eu chegar em casa e vi a mensagem. Chorei muito. Mas o trajeto foi o suficiente para eu esquecer todas as mágoas. Eu gosto dele demais para ficar magoado por causa de uma briga. Claro que desculpo. Uma, duas, mil, um milhão de vezes. Ele me ama. E eu amo ele desesperadamente.

“Volta essa música, amor. É, essa mesmo!”. A música linda. Parece que eu já ouvi antes. Ela me lembra algum daqueles filmes da minha infância. Eu me deito em seus braços e ouvimos aquela música inteira, juntos. Eu não consigo deixar de sorrir. “É essa a nossa música, amor. Hymne a l’amour”.

“Espera só um minuto”. Vejo a rua, ao longe. Os carros passam. Risco o chão com o meu tênis. Será esta a nossa última vez. Treino o discurso que venho repetindo desde a última briga. Ele está com o casaco preto, sério. Lindo. E talvez, a partir de hoje não seja mais meu. Engulo as lágrimas. Vamos para a casa dele. No colchão, ele pergunta. Eu pergunto. E ele fala que é melhor não. Eu não quero que termine. Não quero. Não pode terminar assim. Ele olha pro chão. “Ok”. Eu o abraço. Ele me abraça. O seu abraço me sufoca. Minha boca procura a sua. Meu rosto procura o seu. Nossas mãos se unem. Sou dele novamente.

“Você tá dançando muitoooo!”. Ele está sorrindo, completamente bêbado. Nós dançamos loucamente. Saudades desses nossos beijos, nossos corpos entrelaçados e da falta de respiração que o tesão que eu sinto por ele me causa. “Tinha um cara olhando pra você”. Saudades desse ciúme besta. Eu não havia visto nenhum outro cara a festa inteira. Porque eu sou seu, meu bobo!

“Gui, eu já tô pronto”. Gui. Gui. Gui. O meu nome não sai da minha cabeça. Faz dois dias que ele não me chama de amor. Deve ser coisa da minha cabeça. Estou com a minha camisa branca, com o capuz cinza. Ah, ele não gosta dessa camisa. Coloco a minha camisa cinza, vermelha e preta. Desço o morro e ele está lá. Cara de cansado. Sem um sorriso. Trago a salada marroquina que a minha tia havia feito, junto com o presente dele. Ele vai adorar, tenho certeza. Ah, tenho que mostrar o vídeo da minha tia e da minha prima. Ele vai rir muito! Sorrio pra ele e ele me olha e esboça um sorriso ‘fake’. “Vamos almoçar. Preciso falar uma coisa com você depois”. Aconteceu algo. Eu me martirizo. O tempo não passa. Preciso saber o que é. Preciso desesperadamente saber o que é. E a hora chega. Ele só pode ter me traído. Não tem importância. O importante é a sinceridade. Eu o perdoo. “Eu quero um tempo”. Ele não me quer mais. Meu mundo caiu.




Exclui mais uma vez o Tinder. Hesitante, exclui também o Scruff. Por via das dúvidas é melhor excluir o Hornet também. Olho pra estante. Ele não a viu. No guarda-roupa, o seu chapéu. O chapéu branco. Da primeira foto. Sem querer derrubo a caixa. E, lá no fundo, a aliança. Tiro e observo.


Troco os dias pela noite. Olho no relógio. Três horas da manhã. Aumento a música. “You're gone and I got to stay high All the time to keep you off my mind High all the time to keep you off my mind Spend my days locked in a haze Tryin to forget you babe, I fall back down Got to stay high all my life to forget I'm missing you”.
14 de dezembro de 2014

Podre!



Podre.
A palavra reverbera,
Sonora, gritante
As mãos que deslizavam pelo seu corpo...
Podres!
Os dedos que pressionavam...
Podres!
Podres eram os sussurros das madrugadas,
Os contornos maliciosos,
Os olhares obscenos
E as incursões sorrateiras,
Tão complexas, pareciam troféus.

Era incontrolável o desejo,
Avassalador,
Abrasador,
O fogo queimava seus dedos
E o vazio...
Podre!
Demônio de si mesmo,
Escravo dos seus próprios ensejos,
Refém da sua falta de amor.
Sugava, então,
Qualquer beijo
De qualquer boca
A qualquer momento.

Mas, mais podre
Era sua falta e seu desespero
Por migalhas de sentimento.
Seu medo,
Podre, tão podre!
Que apodrecia tudo que ele tinha por dentro. 
26 de julho de 2014

Em meus pensamentos



Em minhas razões,
Meu amor se confunde com meu desejo
E meu corpo se confunde, une e exausta o seu.
Minha boca tem sede da sua,
E a minha pele, nua, tem saudade do calor da sua pele desnuda.
Meu amor é puro?
Eu me pergunto
E, por segundos, duvido.
Então me lembro do horizonte do seu sorriso,
O aconchego do seu olhar
E silencio as minhas dúvidas.

Em meus sonhos,
Antigos sonhos,
O amor seria uma calmaria,
Um barco ao relento,
Lento, mas não parado.
Meus pré-conceitos...

Pois em minhas expectativas,
O amor é doação,
Partilha
E compartilhar a tensão,
Tesão,
Pulsão,
Calmaria de sensações.

Em meu presente,
Vivo aquilo que acredito
E me regozijo.
Em minhas lembranças,
O amor tem um cheiro adocicado de noites silenciosas,
Deitado por sobre seus braços,
Tempo pausado,
Deleite prolongado:
Amor, pra mim, é você.







9 de abril de 2013

O "Outro"

Quero as cartas,
Quero as flores
Destinadas a outro homem. 

Quero o seu toque, 
Quero a sua língua na minha,
Quero a morfina, 
A nicotina,
Qualquer coisa que aplaque a minha ira. 

A segunda opção sou eu,
Segundas intenções,
Segundos contados
Na cama do seu quarto.
A mim só é dado o que sobra,
Resto dos poemas,
Resto das palavras,
Resto dos suspiros.
Quero o que me falta. 

Até quando pretende me manter como amante?
Como saber o que é verdade e o que é mentira?
Como não depender das suas palavras vazias?
Diga-me!
Quais são os sinais?

Somos aqueles que permanecem com o tempo
Quais são os seus anseios?
Do que é que você tem medo?
Conte-me os seus mais íntimos segredos,
Revele-me os seus mais loucos desejos.
Compartilhe mais do que seu corpo.

Quero ser aquele que pode ser visto com você, 
A razão do seu desejo,
Uma foto em um porta-retrato,
O lugar reservado em seu carro.
Quero ser o primeiro na lista do seu amor ambíguo, 
Quero ter seu amor, 
Mesmo que seu corpo seja eternamente dividido.


15 de fevereiro de 2013

Amor carnal



Sinto sua falta...
Falta da sua voz,
De suas palavras,
Sua reconfortante presença
E do seu rosto.
Mas não vou mentir...
Sinto mais falta do seu corpo.

Você invade os meus sonhos,
Atrapalha os meus cálculos,
E me tira da rota.
A sua falta me sufoca,
Mas não vou mentir...
Tudo isso é pouco
Diante do desejo que sinto pelo teu corpo.

Minhas mãos ainda trazem o seu toque,
Minha boca ainda tem o gosto dos seus lábios,
Todo meu corpo ainda está marcado pelos seus rastros
E ele ainda é fiel, só a você responde.
Os meus instintos só o seu corpo reacende,
E só com ele o meu corpo aquece.
Sofro de um amor carnal
E não posso mentir...
Eu sou um animal,
Louco para novamente lhe possuir. 
8 de janeiro de 2013

Insanidade



 Nesta manhã acordei sóbrio,
Tive um sonho:
Você me tomando em seus braços,
A ressaca do amor nos embriagava
E as estações se alternavam.
De repente, eu estava sozinho.
Acordei me sentindo só.
Sóbrio, porém solitário.

Nesta noite, permaneci lúcido.
A Lua Cheia me chamava
E eu me fingi de surdo.
“Sua inconstância não me afeta mais”,
Gritei, raivoso por fora, vazio por dentro.
“Mãe!”.
Eu chorei, olhando para a Lua.
Sorri, louco novamente.

Nesta tarde adormeci.
O calor tirou a minha roupa.
Ou fui eu?
Nu, o desejo me consumindo,
Meu corpo todo enrijecido.
Sangue, calor e desejo querendo alimentar meu vício.
Meu corpo quer seu corpo.

Sou um monstro,
Mas eu amo.
“O sentimento é começo da razão!”,
Lembrei-me.
Eu amo!
Não sou um monstro louco.
28 de setembro de 2012

Entre Lobos - Parte III




Mas tudo tem um limite e eu havia chegado ao meu. Eu me rebelei em uma noite. Foi noite de Lua Cheia. Claro que não era coincidência. Noites de Lua Cheia são as noites em que fico mais carente por amor, as noites em que tenho mais sede de amar e ser amado. E ser um pedaço de carne que é usada por todos não é amor. Nunca vai ser. Foi numa noite de Lua Cheia que eu me revoltei e gritei para todos da matilha ouvir.
                - Eu não aguento mais. Escutem quem quiserem ouvir. EU NÃO AGUENTO MAIS! Sim, estou gritando. Para que todos ouçam, para que todos me apedrejem depois, se quiserem. Que me batam, que falem mal, que me zombem, que me humilhem. QUE ME MATEM. Mas vocês vão me ouvir!
                Todos se calaram e me olharam, atentos. Ainda eram olhos de lobos. Mas eram lobos assustados. Estavam atentos. Continuei.
                - Vocês são um bando de lobos. Mas, ao mesmo tempo, vocês não passam de pedaços de carne. São lobos, pois ficam disputando pedaços de carne uns com os outros. Mas são pedaços de carne para lobos. Não passam disso. Vocês apedrejam todos aqueles que se amam porque são covardes. Têm medo de não serem amados. Têm medo de ficar à mercê de alguém. Têm medo de se entregar. Ser um lobo que come todo e qualquer pedaço de carne é fácil. Ser um pedaço de carne para todo e qualquer lobo é fácil. Quero ver se envolver com alguém, admirar as suas qualidades, aturar e tentar ajudar a diminuir seus defeitos e manias. Quero ver se encantar e se perder por alguém. Lutar contra o tempo, para que a relação não caia na rotina. Lutar contra si mesmo, para que você seja sempre o melhor para essa pessoa. Não, vocês são covardes!
                Eu esperei vaias, gritos. Esperei tapas, socos e murros. Mas tudo que recebi foi olhares atentos. E não eram mais olhares de lobos. Eram apenas olhares de garotos. Garotos que percebiam o quão idiotas haviam sido. Garotos carentes e cansados de serem apenas pedaços de carne e lobos. Garotos arrependidos. E, dentre esses olhares, havia apenas um que me deixava sem jeito. O olhar de admiração de Gabriel. E o seu sorriso, tão perfeito.
                - Ele tem razão!
                - Já estou cansado de ser um pedaço de carne!
                - Eu também!
                - Eu também!
                - E eu também! Eu quero alguém que goste de mim, realmente. Mas eu sempre tive medo de ser condenado por isso!
                - Eu também!
                Os gritos iam se multiplicando. Mas uma pessoa continuava com olhos de lobo. Olhos de lobo traído. Olhos de lobo furioso. Olhos de lobo líder, que tem a obrigação de voltar a demarcar território.
                - São mesmo um bando de covardes! Quem se importa com esse papo idiota sobre amor? Quem se importa com amor? Aliás, quem de vocês realmente sabe o que é amor? Amor machuca. Amor fere. Amor deixa feridas. Ninguém precisa de mais feridas. Ninguém precisa ficar se humilhando por outra pessoa, para ser deixado de lado. Ninguém precisa se dedicar à outra pessoa e depois não ser valorizado. Amor é isso... Apenas isso! Sexo não. No sexo os dois sempre dividem. No sexo os dois se unem. Os dois se tornam um só. No amor você nunca será totalmente correspondido.
                Nesse instante os olhos de lobo sumiram. Estava tudo explicado, finalmente. João era apenas um garoto ferido pelo amor e, por isso, havia se tornado um lobo. Ele apenas precisava curar as suas feridas. E, se tornando um lobo caçador de carne, ele não iria conseguir isso. Mas o importante era que todos entenderam. Foram todos saindo da sala até restar eu, Gabriel e o João.
                - Vamos, Artur! – me chamou Gabriel, sorrindo.
                - Pode ir. Eu preciso conversar uma coisa com o nosso amigo João.
                Ele balançou a cabeça, em sinal de afirmação, e saiu.
                - João, não fique assim. Só porque uma vez não deu certo não quer dizer que não irá dar certo novamente.
                Ele olhou pra mim e abaixou a cabeça. Estava chorando.
                - Eu o amava tanto, Artur. Assim como você ama Gabriel. Mas eu não era amado. Fazia tudo por ele. Tudo mesmo. Mas eu era invisível pra ele. Mas os outros gostavam de mim. Do meu corpo. De usar o meu corpo. E então, um dia eu desisti. Desisti dele. Desisti de mim mesmo e me entreguei aos outros. Fui fundando o nosso grupo. Fui me tornando um lobo, como você disse. Mas eu nunca o esqueci. Nunca vou esquecer...
                - Quem é, João?
                Ele apertou as mãos, levantou a cabeça e me olhou nos olhos.
                - Você!

*  *  *

                Depois de algum tempo as coisas voltaram ao normal. Os grupos pararam de se reunir. Os garotos começaram a se amar. Eu consegui me perdoar por ter sido o estopim de tantas crueldades. Com o tempo parei de me perguntar como seria se eu tivesse sido mais atencioso com João, se tivesse desconfiado que ele me amava.  Quanto ao Gabriel... Bem, eu ainda enfrento o tempo para que a nossa relação não caia na rotina. E, depois de viver entre lobos, a relação sempre se fortalece. E a gente aprende que nunca devemos nos tratar como pedaços de carne e muito menos sermos lobos devoradores.





26 de setembro de 2012

Entre Lobos - Parte I



 Aparentemente eu sou um cara normal. Minha aparência não é das piores, aliás. Sou o típico “garoto perfeito”, ou seja, cabelos loiros, olhos azuis e corpo escultural. É, não posso reclamar do que vejo no espelho.
Eu sou desejado pela maioria das pessoas do meu colégio. Gostaria de observar que estudo em um colégio onde só estudam garotos. Não se estranhe, aqui é como uma prisão. Muitos destes garotos vão namorar garotas quando saírem daqui. Muitos, não todos...
MEU SEGREDO Nº 01: EU REALMENTE GOSTO DE GAROTOS.
As coisas por aqui são bem definidas. A maioria dos garotos não quer perder sua masculinidade, por isso a maioria não pratica o sexo propriamente dito. Preferem apenas as preliminares. Acaba com o stress, relaxa, goza. Porém o sexo propriamente dito, com penetração, não é tão comum. Não são todos que o praticam frequentemente.
MEU SEGREDO Nº 02: EU PRATICO SEXO FREQUENTEMENTE.
Os garotos que praticam sexo frequentemente geralmente montam um grupo. Nesse grupo nada é definido. Todos fazem de tudo. No meio da noite, nos dormitórios onde eles se encontram, é um bacanal de orifícios, mãos e bocas. E gemidos. Muitos gemidos. Os gemidos são como uivos de lobos. Mais e mais vão se juntando à “matilha”.
Monogamia não é o comum nesse colégio. Seguem-se os princípios de igualdade e fraternidade. Todos devem se dividir mutuamente. A monogamia é vista como egoísmo. Mas, o que ninguém sabe, é que eu abomino essas práticas de promiscuidade.
MEU SEGREDO Nº 03: EU TENHO UM AMANTE
                O nome dele é Artur. É o meu cavaleiro. Ou melhor, o meu cavalheiro. Nesse colégio de brutos e mal educados ele é um verdadeiro gentleman. Artur é o meu porto seguro. Pode parecer estranho dizer que o fato de estarmos juntos há tempos é perigoso. Mas é a verdade. É arriscado ser fiel a alguém por aqui. Mas ele me faz bem, extremamente bem e o nosso amor é o nosso segredo.

*    *    *
               
Hoje é uma noite especial. Noite de Lua Cheia. É impressionante como ela afeta Artur. Ele fica extremamente carinhoso e sedutor nessas noites.
                Caminho para o seu quarto e escuto os gemidos nos outros quartos. Parecem lobos. Fico me perguntando se os funcionários não escutam ou se fingem que não escutam. Os gemidos aumentam. É, acho que é a segunda opção.
                Ando distraído e esbarro com o João. A propósito, acho que não falei sobre o João. Digamos que ele seja “o líder da matilha”. Um garoto bruto e mal educado, extremamente malicioso e satírico. Sente prazer em humilhar as pessoas e ficar fazendo trocadilhos sujos. Ah, e ele me persegue. Não só a mim, obviamente. Ele é um caçador. Gosta de carne fresca e intocada. É o meu caso. Pelo menos é o que todos do colégio pensam...
                - Olá! – ele me cumprimenta, com um sorriso malicioso. – Andando por aí a essas horas? Eu poderia pensar que você está indo encontrar com alguém escondido.
                Levo um pequeno susto. Será que ele sabe? Não, não é possível. Eu e o Artur somos extremamente cautelosos. Escolhemos os horários em que os garotos estão “ocupados” demais para nos espionar. Os gemidos denunciam que a matilha está reunida. O mais estranho é que o líder dela está aqui, na minha frente.
                - Que milagre é esse? O líder da ma... – começo a falar, mas detenho-me. A matilha foi um nome que o Artur deu àquele grupo estranho, mas eles não iriam gostar nem um pouco do apelido. – O líder do grupo andando por aí, quando já estão todos reunidos.
                 - Estou procurando novos integrantes. Seria uma honra se você se juntasse a nós. Você sabe como eu aprecio o seu corpo. – disse ele, me olhando de tal maneira que fiquei envergonhado.
                - Esta não é a primeira vez que tenho a honra de receber tal convite. Mas eu sempre recuso.
                - Isso é o mais estranho...
                Ele ficou me olhando, esperando uma resposta. Ele está desconfiado de alguma coisa, isso eu sei. Talvez esteja me espionando ou coisa do tipo. Vindo do João não duvido de nada. Era preciso cautela redobrada.
                Infelizmente acho que hoje era a minha noite de sorte. Artur aparece no corredor e vem ao nosso encontro. Pela sua expressão, me parece estar surpreso. Mas também parece estar um pouco enraivecido. Será ciúme?
                - Ora, ora. Se não é o nosso cavaleiro Artur. – diz João, com o seu sorriso sarcástico. – Cavaleiros da Távola Redonda, curvem-se aos pés de seu rei!
                Ele se ajoelha aos pés de Artur e depois se levanta, dando risadas.
                - Será que estou atrapalhando alguma coisa? Por acaso os dois estavam indo se encontrar?
                Eu olho para Artur, desesperado. Ele percebe minha apreensão. Sim, era o que eu temia. João estava desconfiado de alguma coisa. Eu pensei que o que ele sentia por mim era apenas um instinto de caçador. Eu era a presa que todos queriam, mas ninguém tinha. Se ele conseguisse conquistá-la ele ganharia mais pontos. Ele era um líder e líderes têm de prezar por sua reputação. Mas, agora, vendo ele de fora da matilha me espionando eu já não tinha certeza se eu era mesmo apenas um troféu a ser conquistado.
                - É óbvio que não, João. Eu estava indo ver a Lua Cheia. Amo noites de Lua Cheia. – foi Artur quem se defendeu primeiro.
                - E você? Onde estava indo? – perguntou João, olhando fixamente para mim.
                - Eu estava indo na biblioteca. Deixei o meu livro por lá.
                - Estranho... – disse ele, pensativo. – Pensei que a biblioteca só abria durante o dia. Mas talvez eu esteja enganado, não é mesmo Artur?
                Artur engoliu em seco. Eu havia me denunciado. Estávamos indefesos.
                - Não sei se vocês se lembram do Marcelo e do Rodrigo. Eles viviam juntos. Onde estava um, estava o outro. Os dois nunca aceitavam participar do nosso estimado grupo. Nós começamos a desconfiar que os dois eram bem mais do que apenas amigos... Resolvemos investigar. Um dia eu os encontrei se beijando no quarto do Rodrigo. Vocês se lembram do que aconteceu com eles?
                Eu me lembrava perfeitamente. No outro dia os dois estavam com os olhos roxos, o corpo cheio de hematomas. Rodrigo estava com o braço quebrado e o Marcelo nem conseguia abrir o olho. Nunca mais os dois foram vistos juntos.
                - Pelo olhar apreensivo de vocês, eu acredito que sim. Vocês dois são mais cuidadosos. Não andam juntos, não são vistos juntos. Mas, será coincidência que ambos rejeitam com veemência os nossos pedidos para se juntar ao grupo?
                Eu e o Artur nos olhamos. Percebemos o erro segundos depois. Estávamos sendo muito imprudentes. Era só inventar alguma desculpa. Mas nenhuma aparecia em minha mente. Acho que já era tarde demais.
                - Acho que agora vocês dois estão em minhas mãos...
                Sim, nós estávamos... Totalmente.

*    *    *