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6 de março de 2019

Ensinaram-nos a definição errada de amor



Crescer não é fácil. Amar também não. É o que dizem. E o que é o amor, afinal de contas? Todo mundo tem suas próprias definições, mas em uma coisa todos concordam: é compartilhar bons momentos com alguém que é especial. Todo o resto é acessório. Queremos a segurança de que esses momentos se repitam e aí criamos contratos, modelos e histórias. Mas não é o contrato, tampouco o modelo e nem a história. Ele é o momento, dentro do momento. O amor é quando você me olha nos olhos e congela o tempo. Quando ele passa, se torna saudade e quando a recordação é maior que a vontade de voltar novamente, o amor se torna lembrança. Quando o anseio é repeti-lo, transforma-se em expectativa e quando o medo de não repetir sufoca, o amor vira apego. E o apego é o começo do final do amor. Porque amor não vive no passado e nem é garantia, no futuro. Ele está ali, apenas no momento.

Sendo assim, não posso dizer que o amo se não estou te amando, pois não é amor o que eu sinto. É saudade de você. Tampouco posso afirmar que te amo quando sonho um futuro ao seu lado, pois expectativa não é amor. Não é amor a promessa (e a ação) de estar sempre junto a você. Isso é lealdade, quando ainda há afeto, e apego, quando o compromisso é maior que o amor. Medo da solidão, no segundo caso. A fidelidade não é amor, porque o amor não é sexo, apesar de sexo, às vezes, ser parte do ato do amor. E a fidelidade enquanto promessa é infrutífera. Lembre-se: o amor não é garantia. Sendo assim, o amor não pode ser sinônimo de dor, pois quando o amor acontece (e o amor só acontece no agora) ele não dá espaço para outra coisa a não ser ele mesmo!

Essa minha definição de amor é tenebrosa, eu sei, porque ela retira do sentimento toda a obrigação de perenidade. Todas as inseguranças e regras deixam de ser amor. Mas o amor é assim, efêmero, mas gratificante. Tudo que eu já disse sobre o amor tornou-se, então, mentira. Mas não se preocupe, tudo que nos ensinaram sobre amor estava errado. É triste ver que muitas pessoas ainda carregam a potencialidade de amar, mas são sufocadas pelos sentimentos que rodeiam o amor. O amor está além das definições e ele aceita tudo, menos que não seja recíproco. O orgulho não, o ciúme não, a insegurança não, o amor sim.

Eu não posso e nem devo prometer nada, mas já prometi demais. Não posso e nem devo esperar, mas já esperei. E não posso garantir que não serei afetado por tudo que cerca o amor. O mais certo é que eu seja. Peço paciência. Alguns esperam mais do amor do que outros. Mas quando estou nos seus braços, o tempo ainda congela. Vejo que ainda te amo. Nada mais importa.



Publicado originalmente em © obvious: http://obviousmag.org/amoral/2016/02/ensinaram-nos-a-definicao-errada-de-amor.html#ixzz5hQyHtIyw
6 de novembro de 2017

Por onde andas?

"A emoção acabou, que coincidência é o amor. A nossa música nunca mais tocou."
Codinome Beija-Flor 



Onde foi que eu me perdi?
Eu me perguntei. Eu me pergunto, com a mesma dúvida desoladora dos últimos dias. Onde foi que eu me perdi?
Lembro da inocência dos dias tranquilos, onde os cafunés eram abundantes e se excediam às cruéis despedidas. Nesses dias o amor (ainda) existia. E mesmo quando acabava, a esperança não dava lugar ao vazio. Há sempre uma nova estrada a ser percorrida.
Onde foi que eu perdi?
O encanto sutil dos encontros, o ajeito suave do cativar, a lentidão de se desnudar a alma e a alma alheia ser despida. O toque sincero e honesto nas pontas dos cabelos, o beijo... Os beijos! Ah, as incursões aos lugares onde a paixão poderia desabrochar, o calor dos corpos que se aquecem e o emaranhado de poesias que o amor traz.
Por onde andam os meus sentimentos?
O que foi feito do meu coração?
...
Pois há que se dizer que os cacos estão jogados. Perdeu-se a poesia dos últimos dias e a arte, que era o amor, era o amor, foi-se embora. Estamos blindados. Cadeados. Muralhas.
14 de dezembro de 2014

Podre!



Podre.
A palavra reverbera,
Sonora, gritante
As mãos que deslizavam pelo seu corpo...
Podres!
Os dedos que pressionavam...
Podres!
Podres eram os sussurros das madrugadas,
Os contornos maliciosos,
Os olhares obscenos
E as incursões sorrateiras,
Tão complexas, pareciam troféus.

Era incontrolável o desejo,
Avassalador,
Abrasador,
O fogo queimava seus dedos
E o vazio...
Podre!
Demônio de si mesmo,
Escravo dos seus próprios ensejos,
Refém da sua falta de amor.
Sugava, então,
Qualquer beijo
De qualquer boca
A qualquer momento.

Mas, mais podre
Era sua falta e seu desespero
Por migalhas de sentimento.
Seu medo,
Podre, tão podre!
Que apodrecia tudo que ele tinha por dentro. 
13 de dezembro de 2014

Artur. Sem H.

Os finais de semana se arrastam com a lentidão de um século. Alterno entre criar uma história e contar o que realmente se passa. E por que não unir os dois? Mas, como eu ia dizendo, os finais de semana se arrastam. E o personagem que se arrasta na lentidão dos finais de semana poderia ser uma versão minha, incompleta de tão só, completa de potencialidades de tão amparado. Um nome diferente, afinal ninguém precisa saber das coisas loucas que se passam nas mentes estranhas dos dias vazios.

O nome do personagem é Artur. Assim mesmo, sem H. Sem h de homem, mas com h de hábito. Habituado era a alternar entre as mais diversas atividades. Ele acordava de manhã e, ainda na cama, pegava o seu computador. As notícias eram as mesmas. As mensagens continuavam inexistentes. O final de semana continuaria com o H de horrível. Ele se empolgava com alguma história interessante, alguma atividade que o preenchia por algumas horas. Almoçava. Saía, às vezes. Lia. Comia. Cantava. Dormia. Cochilava. Ligava. Mandava mensagem. Arrumava a casa. Passava roupa. Tirava o cadarço branco do tênis já lavado no meio da semana e colocava no lugar. Existência cruel.  

Talvez seja errado contrariar a realidade das coisas, ainda mais quando se estuda para ter introjetada a mentalidade do real como um espelho passível de reflexão. (Sim, jornalismo. Assim mesmo, com j minúsculo). Mas, com uma existência como a de Artur, será que não me permitem um pouco de licença poética? Pois bem. Artur era assim. Gostava dos finais de semanas completos. Repletos de atividade. Adorava trabalhar. O ócio é o que o matava. O tédio era seu maior suplício. Artur não era solitário. Não, não. Dizer tal coisa é um sacrilégio. Mas dizer que Artur tinha a companhia dos finais de semana é faltar com a verdade. Decidam-se vocês pelo pecado maior. Artur sofria da incompletude dos românticos. Ou do tédio dos que se acostumaram a ser por demais atarefados. Eu, como autor, prefiro a primeira opção, mas a segunda não é completamente falsa.

Sim, sim. Quanto drama, devem estar dizendo ou pensando. Como se o Artur já não o soubesse e, nos malditos finais de semana, se condenasse por sentir o que sente. E ele tentava. Não vamos condená-lo por falta de prática. Saía. Ia ao cinema. Passeava no bosque. Andava de ônibus. Saía com os seus amigos. E não sejamos exagerados. Nem todos finais de semana eram ruins. Havia os bons. Havia os ótimos. Havia os que ele queria congelar. Mas os ruins sempre se sobrepõem na memória.

Artur encontra um Lucas. Ou um André, um Carlos, um José, um Sebastião. Vazio como ele (nos finais de semana). Cheio como ele (nos dias úteis). Ansioso por compartilhar a inutilidade de uma companhia. Solitariamente solitário, amigavelmente repleto das melhores amizades. Talvez oposto por demais. Talvez parecido em excesso. Mas disposto. No final, não é esse o ingrediente mais importante?


Talvez tudo isso seja uma mentira. Talvez não. Talvez o Artur continue o mesmo, nos mesmos finais de semana. Mas ele segue. Bobo. Entediado. Empolgado. Com a esperança de encaixar o H certo do seu nome e tirar aquele outro sufocante H da sua vida. 
29 de novembro de 2014

Meus axiomas

A alegria de alguns sorrisos descabidos,
Nesse cabide, como é mesmo que chamam?
Normalidade!
O exagero destes gritos,
O excesso das duras verdades,
Desse chão duro em que pisam.
Como é mesmo o nome?
Realidade!
Pois que deixem-nos em nossas risadas escandalosas
Nós somos jovens,
Tão jovens.

Melódicos em nossas canções,
Somos tão tristes em nossa tristeza:
O exagero é nosso por direito,
Nossa maior qualidade,
Nosso mais notório defeito.
Um sexteto de instrumentos diversos
Mas de harmonia congênita:
Temos violas de cordas que se preocupam,
Tubos de um trombone que se anseia
E toca, nervoso,
Pelas teclas do piano que se alheia
E o violino, tão sensível,
Entrega as notas mais sofisticadas a toda e qualquer sereia.
A cantora dá risadas,
E o silêncio escuta, sereno, alheio, pequeno,
Entra e sai,
É intruso, mas também faz parte do concerto.

São plantas,
Sensíveis à temperatura,
Com galhos para todos os lados,
Mas de raízes profundas.
Vêm e vão,
Caem as folhas no inverno,
Mas se alegram na primavera
E a estação das flores sempre perdura.
Enroscam-se,
E uma planta a outra segura,
Mesmo pesadas, uma a outra não derruba.

Nestes estribilhos,
Nada foi aclarado,
Tudo, escurecido.
E já explico quem são,
E entenderá o motivo,
Tão óbvio quanto um axioma, meu caro,

São os meus melhores amigos! 



9 de setembro de 2013

Valsa com a solidão



Nessa imensidão de corpos perdidos,
Corações vazios,
Olhares aflitos,
Tédio infinito,
Minha alma valsa sozinha
E encontra com a solidão.
Minha alma grita e tenta fugir,
Mas a maldita rodopia, gira, dá a mão,
Sufoca, aperta, não solta.
Minha alma não suporta
E, reconhecendo o seu próprio vazio,
Abraça a solidão.
Amor é falta.

Nessa dança louca,
Em meio ao caos,
Sobrepõem-se opostos.
Constroem-se paradoxos,
Amor e ódio,
Morte e vida,
O querer e o não querer.
Minha alma tropeça,
Meu desejo não impera,
A solidão faz festa.
Valsa com exatidão
Em seu próprio terreno
E, aqui, na imensidão que torna a qualquer um vazio,
Quem não valsa acompanhado,
Nunca dança sozinho:
Valsa com a solidão. 






16 de janeiro de 2013

Reticências


Ainda estou aí
Nos detalhes que você prefere esconder
E na distância que você impôs.
Fui parte incomensurável da sua solidão,
Amor inconstante em toda e qualquer estação
E incômodo infinito.
Não passei disso,
Uma reticência em sua vida.

Estou aqui
E você tão longe,
No lugar onde sempre morou
Inacessível ao amor.
Meus pés estão feridos
E minhas mãos estão machucadas,
Andei demais pela estrada,
Desesperado, em prato, aos gritos.
Nunca passei disso,
Um grito por um compromisso impossível.

Mas o pior ainda está aqui:
Você, dentro de mim,
Junto a lágrimas, palavras, lembranças.
Tentei te modificar,
Mas foi em vão...
Você nunca quis me amar.
Somos pedaços destinados a não mais se encontrar,
Peças de um quebra-cabeça que nunca vão se encaixar.
Eu aqui,
Você aí.
Este é o fim. 


18 de dezembro de 2012

Recordações


Foi mais ou menos nesse tempo
Outubro, dezembro...
Não me lembro.
Sei que foi num domingo
E ainda me lembro.

Descascando batatas que ainda não joguei no lixo
Só você pra entender tudo isso.
Já faz um bom tempo,
Muito tempo
E eu ainda me lembro
E eu ainda sinto
Que aos poucos fui te perdendo
Aos poucos fui te ganhando
Ganho ou perco?
Ainda não sei, meu anjo.

Somos águas que deságuam
Mas eu ainda não entendo por que te quero tanto
E por que o ciúme é tanto
Quando tão pouco é o que tenho?

O que quero dizer,
Se é que me fiz entender
É que amo você
Esse meu ciúme e posse é que é difícil de compreender.  

TRUE LOVE - Snow White by Dronio http://dronio.deviantart.com/gallery/9180529#/d98vsh

25 de novembro de 2012

Sou seu




Eu não preciso guardar suas palavras
Para lembrá-las
Você não precisa estar em curta distância
Para que eu esteja em sua posse.
Sou seu.

Você não precisa prometer me amar
Para me conquistar
Você não precisa se preocupar com idade
Para ter-me em intimidade
Sim, sou seu.

Eu não preciso do seu beijo
Pra que você esteja em meu pensamento
Você não precisa de beleza extrema
Pra que a minha alma lhe pertença
Sempre fui seu.

Eu não preciso da sua ausência
Pra sentir falta da sua presença,
Tenho uma saudade que aperta mesmo em sua companhia
Pois você, presente ou ausente, já faz parte da minha vida.
Ainda sou seu.

Você não precisa ser meu
Para que eu seja inteiramente seu
E não precisa prometer
Pra me convencer.
Eu não preciso me convencer:
Já sei que estou destinado a te perder.
E, mesmo assim...
Ainda amo e pertenço a você!