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16 de junho de 2017

Desromantizando o amor



Ninguém é obrigado a te fazer feliz. Você não precisa de ninguém para ser feliz. O amor que você dá e os cuidados que você dispensa a alguém não tornam-se, automaticamente, uma dívida: ninguém é obrigado a pagar pelo carinho que você compartilhou. O amor não é uma moeda de troca. 

Você não "precisa" de alguém e ninguém "precisa" de você. O amor não é uma prisão sem chave: você pode sair quando não estiver se sentindo bem e a outra pessoa também não é obrigada a ficar onde não quer. Você não precisa suportar os defeitos de ninguém, assim como ninguém precisa suportar os seus defeitos, se toda essa convivência faz com que no final do dia ambos estejam saturados. Você não é obrigado a estar, ficar ou tornar-se infeliz por "amor a alguém". 

Nenhuma garantia será suficiente para aplacar a sua insegurança: contratos, promessas de amor eterno e cerceamento da liberdade não são amor. Você não precisa deixar de fazer as coisas que gosta porque está com alguém. Você não precisa sacrificar os seus sonhos, desejos, vontades e necessidades por alguém e ninguém precisa sacrificar necessidades, vontades, desejos e sonhos por você. Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas que você porque "se apaixonou por você". Amar não é antônimo de liberdade e sinônimo de sacrifício. Amor não tem que rimar com dor. 

Se alguém pede que você se afaste das pessoas que você gosta "por amor", afaste-se dessa pessoa. E, nunca, nunca, nunca abandone os seus amigos por influência das pessoas com quem você se relaciona. Amores vem e vão, mas dizem que as amizades verdadeiras permanecem ao longo do tempo. 

Ninguém nunca vai corresponder às suas expectativas e você nunca corresponderá às expectativas de ninguém. Você não precisa se adaptar às expectativas de alguém: é necessário, apenas, respeito. Respeito pela história da pessoa com quem você se relaciona, que tem uma vida que não depende de você. Amigos que ela conheceu antes de você, sonhos que ela teve antes de te conhecer, pessoas com quem ela se relacionou antes de você e talvez ainda mantenha contato, uma família que sempre estará lá, quer você queira ou não, e uma vida inteira pela frente, que seguirá, com ou sem você. Você não é insubstituível na vida de ninguém, mas será sempre inesquecível se conseguir manter o interesse, respeitando a personalidade, a história, os amigos, a família, os sonhos e a liberdade da pessoa que, hoje, você ama. 

Mas o amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. O amor não precisa ser eterno. Repito: o amor não precisa ser eterno. E se ele acabou, não quer dizer que ele nunca existiu. 

Uma relação não se faz só de amor e o amor, somente, não consegue sustentar uma relação. É preciso disposição, respeito, muito respeito, desapego e honestidade. É preciso disposição porque às vezes a outra pessoa vai te cansar e você, inevitavelmente, vai cansar a outra pessoa. Mas se ainda houver disposição vocês vão conseguir se relacionar. É preciso respeito, muito respeito. Respeito é primordial. Respeito pela história da pessoa com quem você se relaciona, que tem uma vida que não depende de você. Amigos que ela conheceu antes de você, sonhos que ela teve antes de te conhecer, pessoas com quem ela se relacionou antes de você e talvez ainda mantenha contato, uma família que sempre estará lá, quer você queira ou não, e uma vida inteira pela frente, que seguirá, com ou sem você. Você não é insubstituível na vida de ninguém, mas será sempre inesquecível se conseguir manter o interesse, respeitando a personalidade, a história, os amigos, a família, os sonhos e a liberdade da pessoa que, hoje, você ama. É sempre bom repetir. É preciso desapego, porque ninguém consegue preencher completamente ninguém. Você nunca será o centro da existência da outra pessoa e é saudável que você não coloque a outra pessoa no centro da sua vida. É preciso desapego porque ela olhará para o lado, por mais que você tente tapar os seus olhos. Ela irá conviver com outras pessoas, por mais que você tente mantê-la na torre do castelo do seu amor. Essa pessoa poderá envolver-se com outras pessoas, sexualmente, afetivamente, e isso não quer dizer que ela não te ame. A prisão não garante a perenidade do amor. É preciso honestidade e, sobretudo diálogo, porque pessoas ainda não possuem o dom da telepatia. As pessoas não vão adivinhar o que você sente, deseja e precisa, a não ser que você diga, diretamente, sem palavras, meia voltas, indiretas e enigmas. Por mais que alguém te conheça, anos e anos, décadas, essa pessoa nunca vai adivinhar. Discussões são necessárias, mas brigas devem sempre ser evitadas. 

Não existe a pessoa perfeita, não existe alma gêmea, ninguém tem a "tampa da panela" ou a "metade da laranja" porque somos pessoas completas. Imperfeitas, é verdade. Carentes de amor, cuidado, carinho, proteção, chamego, diálogo, sexo também. Mas ninguém é obrigado a nos oferecer nada disso e não iremos morrer se alguém recusar as nossas propostas em compartilhar todas essas coisas. 

Não sou uma dessas pessoas que fingem uma completa desconstrução e o mais perfeito dos desapegos. Sou também imperfeito. Também sinto ciúme, carência, raiva, insegurança, medo de perder e tristeza quando as pessoas que amo têm de ir. Mas mantenho todas essas coisas na cabeça, acreditando que, por mais clichê que possa parecer, uma hora temos que aprender que é melhor estar só, do que mal acompanhado. 


3 de abril de 2017

Pequenas carências



Estar bem comigo mesmo não me exime de sentir falta. Eu sinto, sem vergonha de assumir.

Eu sinto falta... de receber uma mensagem de bom dia, andar de mãos dadas, deitar no peito de quem eu amo e ouvir seu coração bater. Essas coisas simples. Sinto falta até de coisas que há tempos não tenho: alguém que me abrace, me ame, pegue na minha mão e diga “tá tudo bem”, quando eu sei que não está. Nós dois sabemos, mas um abraço, um beijo e um pedaço de melancia podem fazer o mundo parar de girar por alguns minutos.

Sinto falta de tirar a capa de “nada me atinge”, dormir de conchinha e alguém que sorria ao receber uma mensagem minha. E pare o que estiver fazendo por alguns segundos para garantir que eu sei do sorriso, pela resposta rápida.

Alguém que me encaixe nos cinco minutos da sua agenda lotada de terça-feira. E diga eu te amo com orgulho, tão bêbado que, mesmo eu não bebendo, me embriague com seu hálito, na sexta-feira ou quem sabe mesmo no sábado.

Não é preciso muito para eu me apaixonar: sinto falta de alguém pegar as minhas mãos e sair andando por aí. A caminhada é mais importante que o destino. Ser o cara que eu tenho orgulho de chamar para um feijão tropeiro com a família e que minhas amizades assumam, talvez a contragosto, que é a pessoa certa pra mim.

Eu realmente sinto falta, alguns dias mais que outros e em uns, com tanta força que parece que me falta um dente.

Enamorar pelos seus defeitos e amá-lo após as brigas. E não ter medo de perder quem a gente ama.

Sinto falta dos abraços de urso, beijos de halls de menta, a preguiça dos domingos e os casacos dele que ficam melhores em mim do que nele.

Quando eu penso nesses momentos não me vem um rosto a mente, mas sinto falta de chamar esse cara de rosto desconhecido que anda por aí de namorado. E ser seu companheiro e melhor amigo, mesmo (e mesmo se houver) depois do fim.
25 de setembro de 2016

Seus olhos castanhos


Eu poderia, nestes versos,
Romantizar-te,
Poetizar-te,
Pintar seus olhos castanhos de diamante escarlate
Mas não preciso pintar mais
Gosto dos seus olhos castanhos.


12 de junho de 2016

Histórias de amor. Ridículas




"O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto.
-"As Velas", de Rubem Alves


- Eu não sou deste mundo. – revelou, já no primeiro encontro.

O outro sorriu. Um sorriso bonito, uma covinha que embelezava ainda mais seu rosto. Talvez ele concordasse, já naquele momento, mas nada disse. Fez: pegou a mão do outro e aninhou dentro de suas mãos. Olhou dentro dos seus olhos. O amor é tão clichê... Mas não era amor naquele momento. Aquele friozinho na barriga. Beija, não beija. Onde coloco as mãos? Ansiedade, talvez.

Começaram a ler as estrelas. O astro de um era guerreiro, Marte, Ares; o outro tinha como sina a doçura da beleza e da calma de Vênus, Afrodite, talvez. O segundo duvidou, acostumado a interpretar o céu. “Está errado, só pode”. O outro sorria. “Talvez eu seja um guerreiro desarmado”. Não deu outra. Ascendente Câncer. O outro jurava que isso explicava. O filho de Ares só concordava. Tudo que ouvia dizia muito de si.

Os encontros tomaram os dias da semana. Antes, só se viam aos sábados e domingos. Talvez na sexta. Essas coisas a gente não controla. Definitivamente não. Um deles soube. O filho de Ares. Não queria cair. <em>Fall in love</em>. Mas o outro tinha um perfume de tons amadeirados que impregnava a sua roupa e o deixava com um sorriso idiota de canto de rosto quando levava a trouxa para lavar. Tinha uma mania esquisita de dormir com o dedo na boca e esquecer de colocar o cobertor e era tão lindo, tão lindo, tão lindo dormindo e ele sempre olhava e o abraçava e o beijava e o outro nunca acordou. O outro tinha uma cara fechada de raiva que era tão bonita e ele sempre o irritava só para rir. E ria, ria, ria. Caiu de quatro. Cair de quatro não era para ele. Ele não entendia, mas a queda era deliciosamente reconfortante. A gente se acostuma com esse tipo de coisa.

O “outro” nem ligava. Filho de Afrodite, a deusa do amor. Para ele era natural. E por que o amor deveria ser uma luta, afinal? Se era um enroscar suave de corpos, um café quente em uma manhã chuvosa de um domingo friento, um abraço apertado na despedida e uma mensagem de “eu te amo” no meio da aula na metade da semana que não tinha fim.
Mas sempre há a guerra. A trava. "Eu não queria assim". "Você não deveria ter feito isso". Se pudesse os dois apagavam esses incêndios. Aboliam. O passar dos anos gera um passo cadenciado de saber onde não pisar. O meu espaço e o seu. Basta permitir. O amor é isso, né? Permitir. Deixar o outro entrar e não ter medo. Eu não sei você, mas eu sinto falta disso. Um cafuné. Um abraço apertado que sufoca e não solta, por favor, não solta, quero morar dentro desse abraço e você se agarra naquele abraço e o outro se afoga no seu calor. Já deram um abraço apertado, assim, verdadeiro?

O sexo muda, todo mundo dizia. Quem dera soubesse. Com o amor, eu digo. E mudou. Eles aprenderam, afinal. Quais os botões certos. E que a orelha é o ponto fraco de um e que apertar a bunda é quase matar o outro. Dormir de conchinha (antes era tão desconfortável) era a forma sexual mais pura e recompensadora. “Você dorme hoje na minha casa” era um convite ao delírio. Às vezes nem se convidavam. Com o passar do tempo nem precisava mais. Era uma certeza. PRECISAVAM dormir juntos. Depois daquela festa, a noite toda, os corpos cansados. Chegavam em casa e dormiam um em cima do outro. Às vezes os corpos ainda aguentavam mais algum tempo de uma dança maluca de beijos, braços e amassos, mas sempre, sempre, um estava abraçado ao outro, no final. Denominaram “a arte de dormir em conchinha”. Os dois brincavam que um dia colocariam como habilidade no Linkedin.


O senso comum já aceitou que sexo vicia. Depois que começa é difícil parar. Mas são poucos os que assumem que amor é uma droga. Aquele amor de verdade. Aquele que te deixa de quatro, metafórica ou literalmente, e dá aquela saudade. Depois que você experimenta, você nunca mais é o mesmo. E você quer mais. Algumas pessoas se negam, porque está todo mundo assustado, com medo dessa droga. A política anti-amor já fez adeptos demais. Cair de quatro é sinônimo de humilhação. “Eu não sou desse mundo”, já dizia, no primeiro encontro, um dos personagens deste conto. Diz isso sempre quem sente e não tem medo. Que sabe que todas as cartas de amor são ridículas e que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas, como bem dizia Fernando Pessoa.

27 de maio de 2016

Fachada



Mudado, eu nunca mais fui o mesmo
Você sabe
Eu te odeio
E te amo
Cometo o mesmo erro
Que condeno
O orgulho é fachada
E o prédio já desabou
Você esqueceu:
Acabou!

Cato os cacos
E farrapos
Junto os trapos
Quebro os trapos,
Choro os laços quebrados
Mudaria os versos,
Desesperados, 
Se soubesse se ainda me ama
Porque o amor que tive
Ainda está intacto. 

Quando é que você vem?
Vai deixar a mala lá fora?
E esquecer o que não te convém?
As mãos que não são as minhas,
Que há anos percorrem teu corpo.
Meu corpo, 
Que não é outro,
É o mesmo que se encaixa ao teu
Nas noites de sono.
Esqueceu?
O sorriso que te pertenceu? 
O olhar que te enterneceu?
Os dedos que enrolaram seus cabelos,
Os lábios que molhavam os seus beijos,
O intelecto que o enrijeceu.
Não finja que esqueceu. 
Venha buscar, seu bobo,
Aquilo que nunca deixou de ser seu,
Não se contente com pouco. 


21 de novembro de 2015

Encontros e desencontros




No ponto de ônibus
Um primeiro desencontro: 
Meu olhar não cruzou o seu. 
Na cozinha o primeiro beijo, 
Na cama matamos o desejo
E lá ficamos, você e eu, 
Dormimos, acordamos. 
Na sala, o primeiro encontro:
Seus olhos buscavam os meus. 
Nesse jogo quem ganhou?
Quem perdeu?
Você ou eu?

No quarto o primeiro passo,
Eu fui seu (namorado)
e caímos no buraco. 
Amar não é se jogar no precipício?
Sua mão procurou a minha
E saímos de mãos dadas,
Na rua, na casa, no quarto, na praça. 
Beijamos, , amamos, sorrimos
E eu não sei por que
Seus olhos fugiram dos meus
E voltaram, 
Quando meus olhos não olhavam.
Amar não é amar de novo?

Você me pegou nos braços,
Me botou no colo.
Eu não deixei você cair
Mas eu estou aqui, 
No chão:
O desencontro final. 
Eu prometo sair
Quando a chuva parar de cair.
Eu prometo enxugar as lágrimas
Prometo abrir a porta de casa
Quando eu esquecer que você também chorou, 
Me apertou, me abraçou, me segurou
Não quis que eu fosse embora 
Quando você me deixou. 
Porque sua voz disse adeus,
Enquanto seus olhos ainda queriam os meus.  
21 de agosto de 2015

Saudade de ser seu



E o amor que tenho aqui dentro
Corre aos ventos,
Suave, selvagem, ligeiro
Não se encaixa na finitude do verbo
E não cabe no peito,
Trans-borda:
Além, muito além.

Quem o mantém?
Quem o sustenta?
Quem acalenta a chama que o tem?
Quem?
Quem?
Quem é que explode em gozo, em choro, em ardor?
Quem é que acende o meu amor?
Quem?
Quem?

O coração palpita e sussurra,
Não grita,
Que não assusta:
Quem acende são seus olhos de maresia,
Mergulhados no seu sorriso de porcelana,
Afogados no toque da sua mão na minha,
Acalentado por sua doce voz que diz que grita que me ama.
Não tem segredo:
Essa beleza fresca que afarta meus olhos famintos
E saciam meus lábios vadios,
Esses passos decididos,
E o carinho arredio,
E esse jeito de homem-menino,
Dessa voz de quem pede sorrindo,
Esse abraco que sufoca o infinito,
Esse corpo que provoca arrepios,
Esse beijo que beija e dá calafrio
E essa língua de satírico
Ah,
E por tudo isso e mais um pouco
Por mais um pouco e isso tudo,
Te amo,
Tanto, que não me engano,
E muito, que já me preocupo
Com essa saudade de ser sempre seu.

15 de março de 2015

Assim...

Os cobertores... Ah, os cobertores... A metáfora perfeita de uma vida perdida (ou ganhada) em abraços, afagos e beijos. Os cobertores que cobriram os nossos corpos na primeira e na última vez não são os mesmos, mas os cobertores vem nos cobrindo e descobrindo, fazendo a cobertura de nossos abraços desengonçados e sendo cobertura de nossos corpos enlaçados. Viveríamos debaixo das cobertas, acobertados no infinito afago de nosso amor aberto e descoberto. Viveríamos dentro da colcha de retalhos das palavras que não dizemos e das milhares de letras que não precisaram ser ditas. Nós nos acobertamos dentro de nós mesmos, descobertos de qualquer segredo ou medo.


Mas, assim, nu, é melhor. Assim descoberto e já sem cobertura ou coberta. Assim, como só eu e você podemos ser. Únicos em suas imperfeições e detalhes perfeitamente arranjados. Certos e incertos de que é preciso virar o mundo de cabeça para baixo para entender o nosso amor. Confessos de que juntos ou afastados, nunca estaremos separados. 


30 de agosto de 2014

Meias mentiras

Eu poderia dizer, nestas linhas tortuosas,
Que ainda sou seu.
Seu!
Corpo, alma, coração
Corpo das noites quentes e frias,
Alma do abraço de aconchego,
Coração da entrega sem medo.
Mentiria, porém, se o dissesse.
Em algum momento, eu me perdi de você,
Você se perdeu de mim,
Nós nos perdemos de nós mesmos

Eu poderia dizer, nestas estrofes desconexas,
Que eu o esqueci,
Que as lembranças foram fugazes,
Que os toques foram efêmeros
E que o amor era pequeno,
Foi pequeno.
Mentiria, porém, se o dissesse.
Meu corpo não lhe pertence,
Minha alma não é sua posse,
E, mesmo sem ser seu,
Meu coração se enternece com as lembranças
E não quer ter mágoa daquele que, por muito tempo, o aqueceu.

Eu poderia, e posso,
Dizer, porém,
Que no espelho
Eu me enxerguei
E hoje sei quem sou.
E não mentiria, não minto,
Ao dizer:

Foi maravilhoso amar e ser amado por você!


12 de agosto de 2014

Pressa de você

A saudade tem cheiro de Arbor,
Sorriso gigante,
Me chama de amor.
A saudade é apressada,
Ligeira, falante,
Hesitante, certeira.
A saudade tem gosto de pudim roubado,
Molho rosê compartilhado
E beijo molhado.
A saudade tem som de roda de samba,
Egocentrismo de criança
E amor, muito amor.
Amor que aperta minha mão e segura,
Abraço que sela a paz,
Amor dos cuidados que faz
Amor que eu sinto

Da saudade que você me traz. 


Longa estadia



Uma coisa não me entra na cabeça: que o amor deva ser uma entrada pela porta principal com uma saída rápida pela porta dos fundos assim que a casa começa a ficar bagunçada. Será mesmo masoquismo sentar no sofá da sala e esperar a poeira abaixar? Óbvio, tudo tem seus limites. Se o dono da casa quiser enfiar a poeira goela abaixo, não há cristão que aguente. Pior ainda se ele quiser que você limpe a casa dele. Mas acredito que o amor seja um pouco de suportar. Toda casa tem os seus tempos ruins: seja um inverno, onde nem mesmo a sua aconchegante lareira é capaz de esquentar; seja o verão chuvoso, onde nem mesmo as orações a São Pedro fazem com que a água pare de descer. Sair pela porta dos fundos nesses momentos é fácil. Mas há quem se esquece de que um abraço não acaba com o frio, mas com certeza o ameniza. E água, quando tem de sair, é melhor que saia no suave aconchego de uma intimidade bem construída. E intimidade não se constrói numa entrada de cinco minutos, com paciência apenas para o café. Intimidade surge quando a companhia se faz presente mesmo após a porta da sala emperrar, o forno do fogão estragar e o botijão perder o gás. E principalmente, quando o som do salão de festas não funcionar mais e o dono da casa descobrir que, nestes momentos, pode-se contar com o suave aconchego de uma conversa no sofá desgastado da sala de estar.


Sei lá, pode ser babaquice, pieguice, bobeira, romantismo barato, excesso de comédias românticas e projeções neuróticas. Pode ser coisa de outro século. Sei lá. Mas, para mim, amor é entrada na porta principal. A pré-entrada não importa. Pode ter sido uma conversa de bar, uma cantada sem graça no ponto de ônibus, uma cutucada no Facebook, um ‘sim’ no Tinder. Sem moralismos. O que importa é uma boa estadia na casa. Apaixonar-se pelos detalhes. Ser cativado pelas minúcias. E não se desmotivar com os contratempos. A janela, que levou tanto tempo para que você aprendesse a abrir do jeito certo. Os talheres, que foram sendo tirados da gaveta, um a um, e divididos. Os casacos, que ele tinha tanto ciúme de compartilhar, mas que se ajustaram tão bem a você. A cama, que parece cada dia mais macia. Os lençóis preferidos você já sabe de cor. Mas isso não significa que você não possa surpreender com novos. O tão temido sótão, que mostrou um surpreendente aconchego nos momentos necessários. Também lugar dos álbuns de recordação, museus sempre engraçados de serem remexidos. No final, o orgulho e a satisfação de saber que você ajudou e ajuda a abrir a janela, que não se importa nem um pouco em dividir os talheres, que ama os seus casacos, que se satisfaz plenamente com a cama e que respeita o sótão faz com que a vontade de sair pela porta dos fundos desapareça misteriosamente. Ou talvez nem tão misteriosamente assim.  
25 de novembro de 2012

Sou seu




Eu não preciso guardar suas palavras
Para lembrá-las
Você não precisa estar em curta distância
Para que eu esteja em sua posse.
Sou seu.

Você não precisa prometer me amar
Para me conquistar
Você não precisa se preocupar com idade
Para ter-me em intimidade
Sim, sou seu.

Eu não preciso do seu beijo
Pra que você esteja em meu pensamento
Você não precisa de beleza extrema
Pra que a minha alma lhe pertença
Sempre fui seu.

Eu não preciso da sua ausência
Pra sentir falta da sua presença,
Tenho uma saudade que aperta mesmo em sua companhia
Pois você, presente ou ausente, já faz parte da minha vida.
Ainda sou seu.

Você não precisa ser meu
Para que eu seja inteiramente seu
E não precisa prometer
Pra me convencer.
Eu não preciso me convencer:
Já sei que estou destinado a te perder.
E, mesmo assim...
Ainda amo e pertenço a você!

24 de junho de 2012

O que importa?

“Meu pai me perguntou: - Você é gay?
Eu perguntei pra ele: - Importa?
Ele disse: - Não, não realmente…
Eu disse pra ele:- Sim, eu sou!
Ele disse:- Fora da minha vida!
Creio que ele se importava.

Meu chefe me perguntou: - Você é gay?
Eu perguntei pra ele: - Importa?
Ele disse: - Não, não realmente…
Eu disse pra ele: - Sim, eu sou!
Ele disse: - Está despedido!
Creio que ele se importava.

Meu amigo me perguntou: - Você é gay?
Eu perguntei pra ele: - Importa?
Ele disse: - Não, não realmente…
Eu disse pra ele: - Sim, eu sou!
Ele disse: - Não me considere mais seu amigo!
Creio que ele se importava.

Meu companheiro em perguntou: - Você me ama?
Eu perguntei pra ele: - Importa?
Ele disse: - Não, não realmente…
Eu disse pra ele: - Sim, eu te amo!
Ele disse: - Deixa-me te abraçar!
Pela primeira vez na minha vida, algo importava.

Deus me perguntou:- Você se aceita?
Eu perguntei pra Ele:- Importa?
Ele disse:- Sim…
Eu disse pra Ele: - Como posso me aceitar, se sou gay?
Ele disse:- Porque é assim que Eu te fiz!

Desde então, somente isso me importa.

Autor Desconhecido


"The Summer of '42",  2007
48" X 36", acrylic on canvas
22 de junho de 2012

Minha religião


Não sei te dizer que te amo a não ser em poesia
Sou enamorado, escravo do teu amor
Sei que te sufoco
Mas sem teu amor eu morro.
Sou escravo das lembranças,
E devoto.
Minha religião: tu!
Amar-te é o que faço do amanhecer ao anoitecer.

E te amo
Enfim confesso
O que muitas outras vezes já confessei.
Quero apenas que faça valer a confissão
Meu intuito é aquecer o teu coração
E fazer-te compreenderes o meu amor sublime,
Esse meu amor platônico
Que pinto com as cores todas da paixão.

Inseguranças, ciúmes e possessividade
Tudo deixei...
De corpo e alma me entreguei
A esse amor sofrido, distante
Amor frio sem contato,
Tato, paladar, visão, audição,
No inverno, primavera, outono e verão,
Amor sem tua companhia em toda e qualquer estação.
Amor humano,
Santo e profano!

Amante dos teus beijos,
Entrego-me a ti todos os dias, em sonhos,
Divagações e delírios.
Como ser livre se me fiz devoto dessa religião?
Tu...!

E, já sem corpo,
Já sem alma,
Já sem coração,
Sou teu.
Sou escravo do desejo por teu corpo,
Sou escravo da paixão por teus beijos,
Sou escravo do amor por teu sorriso.

Não exagero,
Não minto o que sinto.
Tu,
Homem de meus delírios,
Amigo,
Amante,
Meu anjo...
Dono de minh’alma e coração,  
Receptor dessa declaração. 







28 de agosto de 2011

Coisas cotidianas sem parênteses

3159891452_a14bb0c655 Coisas dessas cotidianas, que acontecem todos os dias, mesmo que você não veja. Mas acontecem! Coisas normais, ou mesmo coisas anormais que são consideradas normais, porque no mundo é assim: uma coisa quando é repetida infinitamente acaba sendo considerada normal. Duvida? Olha só nas cidades grandes os mendigos pedindo esmola. Pra quem mora lá isso é uma coisa super normal. Não são todos que acham isso, graças a Deus. O mundo ainda tem pessoas com sentimentos. E há também coisas que deveriam ser normais e são anormais. Mas o que eu disse acima mostra que um dia elas não serão mais anormais. Enfim, coisas cotidianas...
E existem coisas cotidianas que ficam presas a um lugar. Existem coisas cotidianas que ninguém, ou quase ninguém vê. E é uma dessas coisas que hoje venho noticiar. Aliás, acho que não são coisas. É uma coisa só. Uma coisa de duas pessoas. Esperto como você deve ser tenho certeza que já tem uma base do que venha a ser, não é?
Então, continuemos... Essa é a história de um casal que se encontrava todos os dias, no mesmo lugar. E, claro, eles tinham um motivo. Não, o lugar não era um lugar lindo, com uma paisagem espetacular, uma vista de tirar o fôlego, um lugar onde todos os casais poderiam se encontrar e ter uma linda tarde observando o pôr-do-sol. Era um beco, uma viela, uma rua escura, aonde ninguém ia. Sem graça, né? Mas esse casal se encontrava era nesse beco. E todos os dias. Na mesma hora.
3 de junho de 2011

Acho que gosto…

Acho que gosto da liberdade.
Não gosto que me digam que não posso.
Não gosto que me digam o que devo ou não fazer.
Acho que por isso eu gosto de escrever
Escrevendo tenho a liberdade e escrevendo tudo posso!


Gosto de ser exagerado,
Gosto de um bom drama.
Gosto de ter alguém do lado e poder falar besteira,
coisa a toa, coisa boba.
Gosto de me fingir assustado,
Gosto de abraçar e ajudar,
Gosto de ouvir.
Gosto de amar.
 
Gosto de pensar que minha aparência não é tão ruim,
Gosto de pensar que muitas pessoas gostam de mim.
Gosto de admirar a beleza do pôr-do-sol,
Gosto do céu azul
E gosto de ser feliz.
 
Eu gosto de imaginar o futuro
E gosto de beijar no escuro.
Quero beijar na chuva,
E quero alguém que tenha um carinho violento.
Eu gosto dos altos
E eu gosto dos fortes.
Eu gosto de ter preferências.
Gosto dos loiros e dos de cabelo preto,
Gosto dos morenos e gosto dos brancos.
 
Gosto de imaginar um mundo melhor.
Gosto de ser o certinho às vezes,
Gosto de ser o rebelde e enfrentar o mundo.
 
Mas não gosto de injustiça,
Não gosto de desordem.
Eu não gosto de ficar sozinho,
Eu não quero que 2012 seja o fim.
Eu não gosto que falem mal de quem eu gosto
E odeio preconceito.
 
Gosto de parecer complicado,
De ser complicado.
Gosto de parecer um desafio,
Gosto de ser um desafio.
E às vezes me faço de difícil.
Mas eu sou fácil,
É uma questão de paciência.
E eu gosto de pensar que paciência não é para qualquer um.
E por isso...
Sou seletivo.
 
Gosto dos meus amigos.
Gosto de correr perigo.
Gosto de adrenalina.
E gosto de segurança.
E gosto de carinho.
 
Gosto de inteligência.
Gosto de sabedoria.
Gosto de aprender e compartilhar coisas sobre a vida.
Gosto de conversar com as pessoas e sentir coisas.
 
Gosto de pensar que sou intuitivo
E que muitas coisas eu adivinho.
E gosto de intuir.
Eu gosto de dar conselhos
E gosto quando meus conselhos são bons.
E gosto de imaginar que eles são quase sempre bons.
 
Gosto de elogios.
Gosto de presentes.
Ah, sim.
Gosto de caras fofos.
Ah, sim.
Gosto de garotas batalhadoras.
Eu gosto de força moral
mais do que força física.
Eu gosto de dedicação.
Eu gosto de ver casais namorando.
 
Eu sou ciumento
E não gosto de ver as pessoas me deixando de lado.
Eu gosto de ligar pros amigos e falar, falar, falar.
Às vezes gosto de não atender o celular
E estar inacessível.
 
Eu gosto de ser essa mudança toda.
E gosto de atenção.
Talvez eu seja um pouco egocêntrico.
Mas às vezes me sinto sozinho
E choro.
Eu posso parecer forte
E eu sou forte.
Mas tem horas que tenho medo do mundo...
 
Gosto de pensar que sou como os outros
E às vezes o mundo me trata como diferente.
Às vezes eu mesmo me trato como diferente.
Às vezes fico procurando rótulos para mim.
E gosto de perceber que um rótulo só não me definiria por inteiro.
 
E, afinal, quem sou eu?
Uma mistura de todos esses gostos,
Todas essas mudanças?
Gosto de pensar que sou uma pessoa no mundo
E meu ideal é mudá-lo aos poucos.
26 de fevereiro de 2011

Saudades…

A adolescência chega nas nossas vidas e com ela percebemos que as pessoas não são tão boas quanto eram conosco quando éramos crianças. Vemos nossos amigos crescendo e matando a criança que tem dentro deles. E a gente entra no mar da vida e nos vemos fazendo coisas erradas e mais coisas erradas que não dão pra apagar e essas contínuas coisas erradas vão construindo a nossa história de vida. E ela fica toda errada!

Os meus verdadeiros amigos que me desculpem, mas pessoas me cansam. Eu me vejo cada vez mais perdido da criança que eu era. Vejo coisas boas, mas as coisas ruins superam essas coisas. Eu, como bom rapaz com alma de garoto, vejo pessoas de todos os tipos. Falsas, pessoas que não gostam de você mas fingem gostar talvez por interesse. As interesseiras que acabam sendo falsas. Essas são as piores. Como é triste perceber que uma pessoa anda com você, uma pessoa está com você todos os momentos não por gostar da sua companhia, mas gostar dos seus favores, gostar que você ouça ela e ela nunca ter tempo ou paciência para te ouvir. E acaba que eu só desconto a minha raiva nas pessoas que mais gosto…
Eu sinto saudades da minha infância. Muitas mesmo. Éramos só eu e minha prima, na imensidão do nosso pequeno quintal. Fazíamos de tudo: desde voar, até cair de uma cachoeira em um barco de madeira. Às vezes fugíamos de casa e aprontávamos na rua. Brigávamos às vezes mas era coisa de criança. No outro dia já estávamos abraçados e brincando novamente. Agora minha prima se refugia nos braços do namorado e eu me refugiei no quarto, trancado, em um computador, ou saindo com os amigos “obscuros”. Hoje vendo uma foto nossa lembrei de uma das melhores épocas da minha vida, quando eu era feliz e sabia, quando a minha única preocupação era qual seria a brincadeira do outro dia.
A maioria dos meus amigos sonham com a maioridade, sair de casa e ter liberdade. Eu não. Eu trocaria todas as minhas chances de me engajar em um relacionamento com algum garoto para voltar à minha infância, quando eu não pensava em nenhum garoto ou garota!
21 de janeiro de 2011

Chove chuva de amor




Chove chuva grossa
O meu amor de mim se aproxima...
E a chuva afina
 
Mais perto ele chega
Meu corpo se incendeia
E a chuva engrossa novamente...


 
Um passo para trás
E eu encosto-me à parede do beco
Ele dá um passo à frente
E encosta-se a mim
E novamente vem a chuva fina...
 
Pinga, pinga, chuva fina!
No lugar da minha agonia,
No lugar da minha perdição!
 
Mais um beijo intenso
E a chuva grossa reaparece
Trazendo o vento
 
Molhados,
Ensopados
Abraçados dois namorados
 
A nossa roupa incomoda
Nossos corpos grudam
E mais uma vez a fina chuva
 
Vamos tirando tudo selvagemente
Amor, beijo e força
Novamente, finalmente...
Chuva grossa
 
E já pelados
Abraçados, colados
Mesmo corpo, mesma alma
Naquele ameno clima
A chuva afina...
 
Satisfeitos
E já das roupas
Refeitos
Cada um para um lado
Mas o beco é lugar marcado
Nos dias de chuva
Pois foi o lugar da primeira vez de amor daqueles garotos apaixonados
29 de novembro de 2010

Tempo

Ultimamente as minhas poesias estão voltando ao ritmo melancólico de sempre. Não escrevi aqui que a poesia nasce em mim e , mesmo eu tendo o poder de escolher sobre o que quero escrever, só ela decidi se vai ser  uma poesia ( pode até mesmo ser um poema ) melancólica ou alegre. Isso depende bastante do que eu estou sentindo no momento que eu escrevo pois os meus sentimentos caem direto na poesia. Só escrevo sobre o que eu sinto, ou sobre quero sentir.
Já faz um tempo que escrevi essa poesia falando sobre o sentimento de perda após um término de uma relação e a renovação diante de uma nova relação. Também fala sobre a percepção de que o fim de uma relação não significa apenas perda, também significa ganho. Quando conhecemos alguém mais a fundo essa pessoa nos ensina muito e nós também damos várias lições a ela.
Essa poesia é daquelas que eu disse que queria sentir. Já passei por várias relações de amizade, mas nada algo profundo como um amor daqueles que a gente não se esquece. Mas… como postarei em outra hora, a calma desesperadora rege o meu ser.