Ergui o copo. Ele também ergueu o seu. Brindamos.
- Aos corações partidos!
- A novos recomeços, meu caro. Histórias de amor não são
contos de fada.
Bebi o meu refrigerante. Ele bebeu a cerveja e me olhou
maliciosamente. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. Por que eu nunca me canso
disso?
-
Passeei a mão pelo meu cabelo e enrolei a ponta nos meus
dedos.
- Quantos anos você tem mesmo?
- Vinte e dois.
Ele deu um sorriso de canto de boca. Eu olhei para baixo e
sorri também.
- Parece menos.
Olhei nos seus olhos.
- Estou muito velho pra você?
Ele passou a mão na barba e sorriu, malicioso.
- Nem um pouco.
-
Falamos de amores passados, profissões desejadas, sonhos e
desafetos. Falamos da situação econômica do país e do futuro incerto. Falamos
do caos e das manias que inventamos para que tudo esteja em ordem. Conversamos
sobre as decisões e indecisões. Analisamos as curvas da boca, os olhares, os
tiques. A noite toda passou em um segundo. Só olhei no relógio – o momento
derradeiro – quando já era a madrugada de outro dia. A Lua pairava, brilhando, sobre nós. E
então falei do seu efeito sobre mim, como se eu fosse um licantropo qualquer.
Ele sorriu. Não acreditava nessas coisas de astrologia, mas tinha um jeito
singular de sustentar o olhar que me deixava desconcertado. Apertava o passo
sem desajeito e arrumava o relógio no pulso com convicção. Tinha um quê de uma
confiança colérica e um não-sei-o-quê de uma calma melancólica que pareciam a mistura
perfeita para um homem.
-
- O amor é um jogo.
- Não discordo.
- Você sabe jogar?
- Só nos meus termos.
Ele jogou a carta. Olhei as minhas. Sorri, desapontado, e
coloquei todas elas na mesa.
- Começou bem.
-
- O que você faz da vida?
- Eu me considero um escritor.
- E sobre o que escreve?
- Histórias de amor. Eu escrevo as melhores histórias de
amor na vida de outras pessoas.
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