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19 de julho de 2012

Reviravoltas - Parte I




E então ele me pergunta:
- Quem sou eu pra você? O que eu significo na sua vida?
É o fim. Foi o que eu pensei. O fim pra mim, porque, para ele, era apenas o começo. O começo no qual ele sentiria tudo aquilo que eu já havia sentido, no qual ele sofreria tudo aquilo que eu já havia sofrido. Tão fácil livrá-lo de tudo isso. Mas bastava apenas uma palavra, “nada”, e ele seria humilhado e maltratado como eu havia sido.
Voltemos ao começo. Um idiota, romântico e sentimental e o objeto do seu sentimento. O cara desejado, seguro de si, bonito, elegante. Traduzindo: aquele que nunca vai te dar bola! Mas você o ama e o admira. Meio de longe. Afastado. No seu interior você sabe que não passa de um amor platônico, impossível de ser realizado. Foi o que eu pensei.
Um dia começo a olhá-lo, admirá-lo e meu olhar se perde. Ele percebe que está sendo observado, eu não. Quando dou por mim ele está sorrindo. Um sorriso perfeito. Com certeza é um sonho, mas não era. E então ele entra na minha vida. Começa a conversar comigo. E o idiota romântico e sentimental se torna a presa tímida e arredia. E talvez, por isso ser apenas um jogo, tenha durado tanto.
Boatos começam a correr. Na escola, começo a ser observado. Eles dão risadas quando passo. “Foi ele!”. Na sala ainda me olham, ainda dão risadas. Alguns nem sequer disfarçam. “O que será que ele andou falando?”. O pior é que não havíamos sequer nos beijado. Era apenas um jogo. E ele parecia que não estava a fim de desistir, pra ter colocado o jogo em risco dessa maneira. “Talvez não tenha sido ele”. Era a voz do meu coração. “Sim, não foi ele! Talvez seja a minha roupa. Talvez esteja rasgada ou algo assim...”. E eu sabia que não estava. Mas coração é assim... Tão forte que consegue acalmar a voz gritante da razão.
O sinal bate. Era a hora de saber o motivo da minha angústia. E, no corredor, fico sabendo. Ele está lá, com os seus amigos. Olha pra mim e sorri. Mas não é aquele sorriso. É um sorriso cínico, de deboche. E, sorrindo assim, ele caminha em minha direção. Os seus amigos o seguem, trazendo em seus rostos o mesmo sorriso cínico e malicioso.
- Olá mocinha!
Continuo calado, olhando em seus olhos, procurando por aquele olhar que, nos dias anteriores, havia me trazido tanta paz e conforto. Percebi que ele hesitava me olhar nos olhos, agora. O sorriso sumiu. Por alguns segundos. Fixou os olhos nos meus e então sorriu maliciosamente. “Ele não quer fazer isso”, razão e coração sabiam disso. “Mas ele não hesitará em fazer. Um garoto como ele não colocaria sua reputação em risco”.
- Eu disse olá para a mocinha. Ela não vai me responder?
Os amigos dele davam risadas estrondosas. Eu chorava por dentro, mas por fora eu continuava olhando fixamente para ele. Ele procurava não encarar o meu olhar. Olhava para os seus amigos, mostrava as mensagens em seu celular. “Eles descobriram e acuaram-no. Ele teve que fazer isso! Eu sou apenas o bode expiatório...”.
Eu me virei e continuei andando. Fui embora, escutando risadas e mais risadas até chegar ao portão. Nesse momento eu já não tinha mais coração. Esse foi um começo e um fim. Começo de um novo eu e o fim do antigo cara romântico e sentimental. 

*  *  *

Eu sofri. Foram tantos apelidos, tantos boatos. Os professores notavam que alguma coisa estava acontecendo. Minhas notas iam piorando, quase não prestava atenção nas aulas. Fui chamado na diretoria. O diretor perguntou o que estava acontecendo, se eu estava tendo algum problema em casa ou algo do tipo. Como podiam ser tão cínicos? Eles sabiam o que estavam acontecendo. Os professores ouviam os apelidos, as piadas. Muitas vezes riam delas, disfarçadamente, claro. E eu estava lá, na mesa do diretor, ele me perguntando se eu estava tendo algum problema. É óbvio que ele sabia. Aquele cara sentimental, tímido e resignado não diria nada. Mas aquele cara havia morrido. Olhei em seus olhos e disse:
- Tenho certeza que sabem o que vem acontecendo. E tenho certeza também que não vão fazer nada a respeito. Tudo que querem é que eu me foque mais nos estudos.
O diretor ficou um pouco surpreso. Com certeza não esperava uma resposta dessas do “garoto comportado”, que sempre tirava boas notas e respeitava professores e alunos. Mas eu havia ouvido conversas entre os professores. “Ah, você sabe como é a adolescência! Eles ficam tão confusos com tudo. Espero que ele tire isso da cabeça. É um menino tão bom!”. E por que eu não poderia ser um menino bom, mesmo gostando de quem eu gostava?  Não, eu não iria mudar apenas porque eles não aceitavam.
- As minhas notas vão melhorar, diretor. Não se preocupe com isso!
Ele afundou na poltrona, aliviado. Sorriu e disse que já podia ir pra minha sala de aula.
Esperei os boatos da “minha mocidade” sumirem. Fofocas eram o que menos faltavam naquela escola e, depois de uns três meses, eu fui esquecido. Zoar a mocinha da escola já não tinha mais graça porque eu não me importava. Sorria maliciosamente. Era o que eu precisava. Eu voltei a procurá-lo. Agora era preciso mais cuidado. Nada de mensagens no celular ou sorrisos disfarçados durante o intervalo. Saber da sua rotina ajudou com meu plano. Ao acabar a aula e depois de sair aprontando com os seus “amigos” populares ele ia sozinho pra casa. Segui-o. Sozinho, ele era muito mais bonito. Estava andando cabisbaixo, com fones de ouvido e observando as paisagens. Eu me aproximei. Aquela rua era deserta, assim não havia perigo de ninguém nos ver.
- Olá!


Continua...

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