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25 de abril de 2015

Surpresa

Como eu poderia adivinhar que aqueles olhos travessos
Atravessariam, serenos e límpidos, os meus olhos pequenos?
Como poderia eu saber que aquelas mãos agitadas
Aqueceriam os meus braços com a calma de um abraço?
Como saberia que o seu jeito impetuoso
Impetuosamente fizesse de mim sua proteção
Na ânsia em me amar?
Como prediria que sua sede de amor, infinita,
Só por mim se saciaria?
Como prenunciar que a falta que o homem da minha vida me fazia
Era uma falta dividida?
Como profetizar que estávamos destinados a nos amar?

No entanto, como duvidar?


5 de janeiro de 2013

Homem de cor




Há, dentre as cores, aquelas que se destacam,
Algumas que deveriam trazer vergonha e culpa.
Há de se ver, porém, que o ódio vermelho que te marca
Não é cor ou fato que me preocupa.
Sou aquele que provoca o seu horror,
Sim, eu sou um homem de cor.

Há, dentre os homens, aqueles que se destacam,
Muitos que se atolam em ignorância,
Julgam, matam e humilham aquilo que denominam ‘raça’.
O que nos aflige também é o que nos cansa.
Indagamo-nos: convencimento ou falta de conhecimento,
Julgar um e outro por um simples pigmento?

A antipatia à nossa cor é implícita,
Nossa altivez, nossa cor: explícita!
E não são eles os bravios,
Brancos, fortes e destemidos?

Do que têm medo?
Serem presos por ódio a um negro?
Não são eles a quem nada abala?
Do que têm medo?
De uma simples senzala?

Há, dentre as cores, aquela que nos define:
O negro, o escuro...
A ausência de cores deste mundo,
Em que a união suprema e soberba de todas elas não nos atinge.
27 de setembro de 2012

Entre Lobos - Parte II




Sim, ele nos tinha em suas mãos. Foi o que eu pensei na hora. Eu estava apreensivo. Como o Gabriel podia ter sido tão imprudente? A biblioteca só abre durante o dia. A biblioteca muitas vezes foi o nosso refúgio. Foi na biblioteca onde tudo começou. Foi nos primeiros dias, naqueles terríveis dias de novato. Eu estava nervoso. Eu andava tropeçando nos meus próprios pés. A biblioteca era o meu refúgio, por ser o único lugar do colégio onde os funcionários fazem vista grossa diante de badernas.
                Não sei se vocês sabem, mas Gabriel é um nome de anjo. E Gabriel parecia mesmo um anjo. Ele tinha os cabelos loiros e os olhos azuis, maravilhosamente azuis. Tão maravilhosamente perfeito. E eu ficava o observando, só para achar algum defeito. Ele ia à biblioteca. Tinha preferência pelos livros policiais. “Gosta de mistérios”, era o que eu pensava. E então eu fui me tornando um mistério, só para que ele gostasse mais de mim. Mas eu não precisava fazer muita força para ser misterioso. Ninguém me notava, aliás. Eu era o menino novato tímido que se escondia atrás dos livros. E o Gabriel era o menino perfeito, com aparência de anjo, que todos os lobos desse colégio desejavam. Mas ele não se entregava para ninguém. “É mesmo um anjo!”.
                Bem, talvez eu tenha sido um pouco exagerado ao dizer que ninguém me notava. Havia o João. No começo ele era diferente. Ele era um cara legal. Foi meu amigo durante muito tempo. Ele fazia tudo por mim, tudo mesmo. Era um grande amigo. Então eu resolvi contar sobre o Gabriel, sobre os meus sentimentos por ele. Ele ficou estranho. “O amor é uma coisa traiçoeira. Não se apaixone por esse menino!”, disse ele, com um olhar esquisito. Parecia irado. Eu fiquei me perguntando porque tinha tanto ódio do amor. Com o tempo ele foi se afastando de mim. Antes os grupos eram desorganizados, mas ele acabou se tornando um líder. Todos do grupo olhavam uns aos outros fixamente, com olhares de lobo. Pareciam que queriam devorar todos. E eles queriam devorar, literalmente. Começaram a criar as suas próprias regras. Foi mais ou menos nessa época que o Rodrigo e o Marcelo foram punidos por se amarem. João foi quem os denunciou. Ele não era o garoto que eu havia conhecido. Talvez nunca tivesse sido.
                Um dia o Gabriel me notou. Olhou para mim enquanto eu estava lendo um livro. E sorriu. Um sorriso perfeito. Todos os dentes perfeitamente alinhados, maravilhosamente brancos. Eu comecei a amá-lo nesse momento. E achei que ele também havia começado a me amar. E eu estava certo, como vim a saber depois. Eu sorri também. 
                Depois disso começamos a nos encontrar bastante na biblioteca. Na estante de livros policiais foi o nosso primeiro beijo. Era o nosso crime. O nosso crime perfeito. E também era o nosso segredo.
                - Ninguém pode saber que a gente se ama, Artur. Esse é o nosso segredo.
                Eu, por nada nesse mundo iria revelá-lo. Foi o que eu prometi pra mim mesmo.
                A gente se encontrava sempre no meu quarto. Éramos extremamente cautelosos e só nos encontrávamos nas noites em que a matilha se reunia. A matilha foi o apelido que eu dei para aquele grupo de lobos. Eles continuavam a me olhar com olhos de lobos quando eu resolvi deixar de ser o garoto que se escondia na biblioteca. A diferença é que agora eu era mais desejado. Eu andava com tanta segurança e havia adquirido tanta firmeza que eles estranharam. Tenho certeza que eles pensavam que eu escondia algo. E eles não estavam errados. “Ninguém pode saber que a gente se ama, Artur. Esse é o nosso segredo”.
                Mas, em uma noite de Lua Cheia, Gabriel foi imprudente e nos entregou. Ficamos nas mãos do João. E, desde esse dia, nossa vida no colégio se tornou um inferno.
                A primeira coisa que João exigiu foi que Gabriel se entregasse pra ele. Além disso, eu teria que observar a cena. Achei que era a pior noite da minha vida. Ter de assistir o meu amante sendo possuído por outro. E João não era nem um pouco sutil e carinhoso. Ele não passava de um brutamonte. Eu tive de me controlar para não avançar pra cima dele e enchê-lo de socos. Porém, tudo que eu fiz foi assistir a cena, em lágrimas. Eu pensei que essa tinha sido a pior noite da minha vida. Eu mal sabia como seriam as outras...
                Depois João exigiu que nós dois fizéssemos sexo em sua frente. Eu quase o soquei ao ouvir essa proposta. Isso era demais. “Mas nós temos de fazer, Artur. Não temos outra opção”. Estávamos sendo covardes. Não estávamos lutando por nosso amor, pelo nosso direito de amarmos quem quisermos. Só porque uma matilha não sabia o que era amar e ser amado, nós devíamos ser privados do amor? Não, isso não era certo. Mas eu me lembrava do Rodrigo e do Marcelo. Todas as noites eu me lembrava dos olhos roxos, os hematomas, o braço quebrado. Todos zombando de algum dos dois quando passavam. E o silêncio dos professores e demais funcionários. Isso era o que mais me matava. Eles poderiam pedir aos pais para sair do colégio, mas o que iriam dizer? Qual seria a desculpa para saírem? A verdade não poderia ser dita. Eu pensava em tudo isso. “É, realmente não temos opção”, eu concordava.
                E nós nos entregamos diante do João. E ele nos olhava. Aqueles olhos de lobo, insaciáveis. Aquele olhar sádico, depravado. Gabriel não aguentou. Ele me abraçava, chorando. Mas éramos obrigados a continuar, João o exigia.
                E as exigências continuavam. Tivemos de entrar para a matilha, participar de suas orgias, beijarmos aquelas bocas sedentas por luxúria, nos entregarmos àqueles garotos sedentos por um pedaço de carne. E era isso que eu me sentia. Um pedaço de carne. Sem coração, sem sentimento, sem emoção. Será que eles não sentiam isso? Que não passavam de um pedaço de carne sendo usada? Era o que eu me perguntava quando estava lá. E eu me surpreendia por conseguir pensar, por ainda conseguir pensar. Sem dúvidas, essas foram as piores noites da minha vida.
                
20 de setembro de 2012

A Estrada

Segue a estrada, meu amigo
Não deixe o sonho na despensa
Pra ser bem sucedido
Tem que ter persistência. 

Segue a estrada, 
Não esquece de nada, 
Leva a alma, 
Leva o corpo. 
Não esquece o coração. 
Ter medo de sentir é coisa de bobo, 
Covarde é quem finge não sentir nenhuma emoção. 

Mas por favor não esqueça o essencial:
Valorize aqueles que seguem contigo a estrada, 
Pra que você não fique sozinho no final. 

A estrada é longa, 
Leva mochila, 
Nela leve tudo que aprendeu nessa estrada chamada vida!


8 de agosto de 2012

Esperança


Não deixe cair...
A esperança é de vidro
E vidro quebra.
Tome cuidado.
A esperança é filha do vento
E o vento vai e vem.
Se ele for embora talvez ele não volte.
Então, por favor, não deixe cair.

Nem tudo está perdido,
Nem tudo está perdido.
A esperança é fogo
E se inflama dentro do meu coração.
Devolve o que é meu,
O amor.
Não que você não tenha merecido
Mas e eu?
Devolve o que é meu
O que eu ainda não tenho, não pode ser dividido.

Eu ainda tenho esperança,
De vidro, etérea e inflamável.
Mesmo que seja fraca
Ela é quem me faz seguir
Sozinho, mas com o que é meu.
Meu coração!



23 de julho de 2012

Segue a estrada


Aqui, no escuro da noite, o desafio é fácil.
Na luz do dia pode ser que eu tropece, mas eu irei conseguir!
Aqui, onde há tanta proteção, não costumo tremer.
Talvez, lá fora, meu corpo sofra espasmos, mas eu não vou desistir!
Aqui, onde sou tão amado, a insegurança não tem porque me assaltar.
Mas o mundo é frio e nem sempre serei acolhido,
E, mesmo assim, ainda terei a mim,
Eu vou conseguir, não irei desistir!

Porque acaba de nascer uma esperança
E ela precisa ser acesa, dia após dia
Para que não seja apagada.
Segue a sina, segue a sina,
Porque acaba de nascer uma estrada para ser seguida.


20 de julho de 2012

Reviravoltas - Parte II




Ele levou um pequeno susto. Pequeno, um leve tremor. Pessoas como ele não se permitiam sentir medo, nem levar sustos. Ele estava sempre preparado para tudo. Ou fingia estar. Ele me olhou nos olhos. Eu via o arrependimento. Naquele momento, com nós dois sozinhos ele poderia pedir perdão. Mas eu não poderia permitir. Eu fui mais rápido.
- Eu te entendo, cara! Você teve que fazer aquilo. Com certeza você foi descoberto não é?
Ele assentiu, cabisbaixo.
- Eu lhe devo desculpas. Prometo que serei mais cuidadoso. Isso, claro, se você ainda me quiser...
E por que ele haveria de não querer? Eu seria o único que estaria disposto a me entregar a ele, sem ninguém saber. Eu seria o único que satisfaria os seus desejos sem atrapalhar a sua imagem, a sua “reputação”. Mas só isso não era suficiente. Ele precisava se apaixonar por mim. Desesperadamente.
Ele sorriu. Ele me queria. E, num dos becos daquela rua escura, foi o nosso primeiro beijo. O jogo havia acabado. Não havia mais uma presa que hesitaria em se entregar e não haveria um garoto idiota e romântico que esperaria se sentir seguro com ele. Mas ele, obviamente, não sabia disso. Foi carinhoso, não avançou nenhum sinal e me deu a segurança que eu não precisava mais. O seu beijo tinha um desejo reprimido, uma vontade de se entregar. Trazia a intensidade de todos os anos em que ele havia escondido o seu verdadeiro eu e todos os anos em que ele haveria de escondê-lo. Ou não...
Passamos a nos encontrar todos os dias depois da aula. Comecei a desvendá-lo, descobrir todos os seus gostos e desgostos, todos os seus interesses, todos os seus sonhos. E, o garoto popular, não era o que parecia ser. Ele também tinha um coração. “Um coração mais puro do que era o meu...”, era o que o meu coração ferido dizia, nos momentos em que eu me permitia ouvi-lo. Era tão fácil fazê-lo sorrir e mais fácil ainda deixá-lo triste. “Mais fácil ainda será fazê-lo apaixonar por mim...”. Gostávamos das mesmas músicas, nos emocionávamos com os mesmos poemas e contávamos as mesmas piadas, as que nós dois já sabíamos. Ele morava com sua avó. Os dois, sozinhos.
- Se você for lá ela nem vai reparar que...
Ele se envergonhava e não completava a frase.
- Eu não me importo. Pode falar.
E eu forçava um sorriso. Ele sentia-se acolhido. E me abraçava.
- É por isso que gosto tanto de você. Você me entende! As pessoas não entenderiam, você sabe. Qualquer dia você pode ir à minha casa. Peço para minha avó preparar uns biscoitos. O que você acha?
- Se não for incômodo...
Essa era a minha frase. “Se não for incômodo...”. Se eu não sujar a sua reputação, se eu não fizer nada pra ele ser descoberto, humilhado, feito de brinquedo como eu havia sido. E aos poucos íamos transpondo os limites. Ele, é claro, estava sendo cada vez mais imprudente. Eu sempre mostrava os riscos, mas ele insistia. Voltamos a conversar por mensagens. É claro que as minhas mensagens ficavam em uma pasta confidencial, com senha. E, obviamente, eu sabia qual era essa senha. “TurningTables”, a nossa música preferida. Reviravoltas. É... A NOSSA música!
Foi por mensagem que ele disse o primeiro “Eu te amo” e, com o tempo, eles não pararam de ser falados. Ele foi se tornando aquele garoto que eu era. Tímido, romântico e sentimental. Sorria sempre que me via, às vezes ficava me olhando, me observando e não reparava que havia outras pessoas em volta. Foi nessa época que meu coração começou a descongelar. Eu voltava a amar ele, aos poucos. “Você tem de perdoá-lo. Ele não fez por mal!”. Mas... E tudo que eu havia passado? Todos os apelidos, todas as piadas, todas as humilhações? Isso será que não valia? “Isso te deixou mais forte! E preparado para amá-lo!”.
Mas eu recusava a ouvir meu coração e meu plano estava dando cada vez mais certo. E então dei o primeiro passo para a vingança. E o seu “melhor amigo” foi o primeiro que comecei a mandar mensagens. Fui zoado por muitos dias, mas coloquei uma ideia em sua cabeça. “Tem uma pasta no celular do seu “melhor amigo” com msgs minhas ou vc acha mesmo q so eu q sou a mocinha?”. Essa mensagem foi a primeira vitória. Ele ficou interessado. “A senha eh TurningTables!”. E então ele pegou o celular e leu. Todas as mensagens. Todos os eu te amos que ele me mandava e a maioria que eu não respondia. Tudo tão devidamente calculado. As minhas mensagens monossilábicas e as mensagens que mais pareciam textos que o meu “amado” me mandava durante as madrugadas. Todas as mensagens. Das mais românticas às mais depravadas. Tudo guardado, as minhas e as dele. “Guarde as suas também, meu amor!” E ele guardou.
O seu “melhor amigo” deixou de ser após saber tudo. E a escola inteira também ficou sabendo. Meu nome já estava sujo, já havia sido fofoca por meses. Ninguém se importava com o fato de eu estar envolvido naquilo. “Não acredito! Mas eu era louca com ele. A minha amiga já ficou com ele. Aliás, não só uma...”. Era o que todas as garotas falavam. E os garotos lamentavam por terem sido amigo de “uma mocinha” por tanto tempo. E eu? Eu estava entre o coração e a razão, apesar de as duas dizerem que eu estava errado. Algo em mim queria vingança e, agora que eu havia feito, eu me sentia mal. O coração era o que mais gritava.
Então ele me procurou. Estava em lágrimas. Mas ele não me culpou. Ele disse que havia merecido tudo isso. Ele disse que me amava muito ainda. Disse que não guardava mágoas de mim. Disse também que a sua avó já sabia de tudo e que havia aceitado numa boa. Eu fiquei desarmado. Não era isso que eu esperava. Eu queria que ele sofresse, queria que ele se sentisse sozinho, como eu havia sentido. Eu queria que ele tivesse de chorar abraçado ao travesseiro, porque ninguém poderia acolhê-lo, entendê-lo, abraçá-lo.
- Quem sou eu pra você? O que eu significo na sua vida?
“É isso! Ele precisa de mim...”. Bastava apenas uma frase pra que ele se sentisse acolhido, pra que tudo isso acabasse. E bastava apenas uma palavra pra que ele se sentisse como eu havia me sentido, pra que sofresse tudo aquilo que eu havia sofrido.
Eu olhei em seus olhos e ele olhou nos meus. Eu estava indefeso. Ele viu tudo isso em meus olhos e então eu me lembrei daquela famosa frase: “os olhos são o espelho da alma”. Haviam sido. Os meus e os dele. Eu havia visto que ele não queria fazer aquilo que fez comigo. Mas ele não estava preparado. “Talvez tivesse de ser assim mesmo”. Eu, o garoto tímido, sentimental e romântico havia mostrado ser mais forte do que o garoto seguro de si, popular e desejado. Então, eu percebi que todo aquele ódio era um amor reprimido, um desejo incontrolável. Eu não queria vê-lo sofrer. Eu queria tê-lo pra mim. Eu queria que acontecesse isso que estava acontecendo. E meus olhos sabiam... Antes mesmo de eu dizer algo ele já estava sorrindo. Então eu o abracei. E lembrei-me de outra frase...
O coração tem razões que a própria razão desconhece.
O meu antigo eu não havia morrido. Havia apenas se aperfeiçoado.